World Association of Psychoalanysis

 

O ENCONTRO COM O GOZO FEMININO

(Segunda Versao)

Leda Guimaraes

 

A invençao do nome de gozo "Mundana" operou o fim de analise pelo encontro com o gozo feminino. Momento em que a presença quase alucinatoria do semblante do objeto olhar conectou tres experiencias sexuais infantis. Experiencias relativas ao encontro contingencial que fixou um modo singular de gozo nos tempos de efetuaçao da estrutura subjetiva.

Primeiro encontro com o gozo

Com idade entre 4-5 anos a menina caminhava na rua muito feliz, pois estava sozinha na companhia de seu pai. O resplendor da natureza, sua beleza e luminosidade, ressaltava-se ao seu redor.

O brilho agalmatico desvaneceu abruptamente e ao seu redor tudo tornou-se escuridao. A menina encontrava-se deitada num consultorio e so havia um pequeno foco de luz que iluminou um jogo de olhares. O medico com o olhar dirigido para a sua genitalia exposta, examinando-a. Seu pai que, ao seu lado acompanhava o exame, por um instante dirigiu o seu olhar para o olhar da menina. Momento em que a menina se viu reduzida a um olhar diante do olhar do pai.

Logo ja estava vestida ouvindo o tom calmo e formal da voz do seu pai que conversava com o medico, mas nada escutava do que dizia, pois perplexa pensava que seu pai falhara terrivelmente, pois em lugar de protege-la, a deixara exposta para ser vista de maneira proibida. Nada falou, com o olhar baixo, envergonhada, so queria que aquele momento eterno acabasse para desaparecer dali.

Segundo encontro com o gozo

Aos 9 anos, brincava com sua companheira habitual, juntamente com dois meninos, sendo que um deles lhe despertava um anseio de namoro para um futuro indeterminado. Os meninos lhes apresentaram a proposta de fazerem jogos sexuais. Movida por uma excitaçao mesclada de medo e apoiada na cumplicidade de sua companheira, decidiu experimentar fazer o que os casais faziam em segredo. Ao primeiro toque de contato genital, com o menino que lhe interessava, sua companheira que, como em espelho, tambem iniciava o mesmo, saiu correndo, deixando-a sozinha na cena. Imediatamente o menino que ficara so dirigiu seu olhar para o par que restara e, naquele momento, seus olhares se cruzaram. Ao se ver sendo vista, a menina tomada de horror fugiu correndo.

Terceiro encontro com o gozo

Entre 10-11 anos, a menina nutria sua primeira paixao adolescente por um garoto que morava na esquina da sua rua e, por isso, costumava passar caminhando em frente a sua casa na esperança de ve-lo. Um dia ao se aproximar dali notou que ele estava na porta da sua casa e, ainda que com grande inquietaçao, decidiu passar caminhando devagar para se fazer vista. Quando cruzou a sua frente, tomou a coragem de dirigir-lhe um olhar. Naquele momento se viu sendo olhada de uma maneira como nunca tinha sido olhada antes. Se viu sendo vista como mulher por um olhar cheio de desejo masculino. Naquele instante, sentiu-se desfalecer, assim como o mundo ao seu redor, reduzida a um olhar que expunha seu ser invadido de puro ardor libidinal. Tomada de susto, retomou o controle do corpo para fugir correndo dali.

Estas experiencias sexuais infantis, ao longo da sua analise, circulavam desarticulada entre si, pelas vias da associaçao livre em meio a outras tantas experiencias, sem que no entanto adquirissem qualquer significaçao essencial. O efeito de sentido que delas se extraia, na conexao associativa com outros elementos, advinha dos detalhes que circundavam estas cenas. Pela via da concatenaçao significante o ponto central das cenas se mantinha excluido: -o semblante do objeto olhar. Estas cenas nao foram, ate mesmo, tomadas de forma direta dentre os elementos que articulados a selva fantasmatica, constituiram o amplo material que resultou na construçao da fantasia fundamental.

Apenas no momento do passe clinico, o ponto central das cenas emergiu pela presentificaçao quase alucinatoria do semblante do objeto olhar. Naquele momento, o semblante do objeto olhar, nomeado pelo traço "olhar ardente", foi extraido do olhar do garoto, como a propria posiçao de gozo da menina invadida de ardor libidinal. Encontro com o gozo feminino, que retroagiu instantaneamente da ultima cena ate a primeira, quando se viu sendo vista como objeto olhar diante do olhar do pai.

A efetuaçao da estrutura

Demonstrou-se no fim de analise que a efetuaçao da estrutura subjetiva tinha sido operada pelo encontro com o gozo feminino. Naquela contingencia primeira, o gozo feminino, gozo fora da palavra, presentificou o ser invadido por um experimentado inominavel. Momento de experimentaçao de morte, posto que, ali nao havia posiçao de sujeito.

Ainda que o apelo estrutural ao significante fizesse sobressair do olhar da menina uma suplica muda, nenhuma palavra foi dita. Suplica que so poderia ser articulavel desde o ponto real de um sonho, como no exemplo clinico freudiano onde um pai despertou de um sonho, diante do olhar do filho, com a frase: "Pai, nao ves que estou queimando?". Mas, o sujeito ai despertou para continuar dormindo.

Neste ponto do impossivel, a menina resguardou para si, em seu gozo, a culpa do pai, abrigando-a no silencio do lastro real do supereu.

A efetuaçao da estrutura subjetiva fixou, assim, um modo singular de satisfaçao pulsional, intimamente articulado a necessaria funçao que nao cessa de se inscrever.

A concatenaçao significante nada inscreve de um modo singular de gozo. Logica do Todo, logica propria ao funcionamento significante, que faz restar nas bordas do simbolico o experimentado inominavel.

Pela necessaria funçao que nao cessa de se inscrever, este experimentado inominavel foi alojado na funçao da exceçao ao conjunto do Todo. O ao menos-Um nao submetido a castraçao e o semblante do objeto (a), ali restaram como a dupla face do gozo, fixando na efetuaçao da estrutura o acento sadico do desejo masculino e a devastaçao masoquista do gozo feminino. Dupla face do parceiro-sintoma que fez existir o Pai, que pelos seus pecados infectou de gozo a menina devastada.

A efetuaçao da estrutura subjetiva fixou-se sob um modo de defesa em relaçao a extimidade do gozo, revestindo o gozo feminino com o semblante do objeto mais-de-gozar em sua intima correlaçao ao menos phi. Semblante formulado por Freud, a proposito da fantasia "Uma criança e espancada", como: objeto-passivo-feminino-castrado.

O gozo capturado na funçao da exceçao passou a presentificar-se em ato, ao longo da sua vida.

A fantasia fundamental

Na tentativa de envelopar metaforicamente o gozo que se fez ato, o sujeito veio a construiu, depois de um longo periodo em analise, a frase axiomatica "entre a vida e a morte". Frase que deu partida a construçao da fantasia fundamental.

Tomou especialmente uma cena que funcionava como um ponto nodal das cadeias associativas na construçao do mito Edipico com o pai. Aos 9 anos, costumava subir nas arvores do quintal, ate as partes mais altas das suas ramagens, sem se preocupar se os galhos cada mais finos iriam suportar o seu peso; ate mesmo soltava suas maos para caminhar equilibrando-se sobre os galhos. Em ato, gozava na posiçao de ser "entre a vida e a morte" para fazer-se objeto falo para o olhar do seu pai, este que costumava criticar seu irmao porque ele como menino nao tinha coragem de fazer as peripecias que sua irma fazia.

A transposiçao do Edipo com o pai para o Edipo primitivo com a mae, se fez quando o sujeito articulou estas experiencias em ato a uma outra, tambem aos 9 anos, que resultou num acidente.

Do alto de uma arvore, segurando na ponta de uma vara, decidida a fazer um salto a distancia, pulou com o objetivo de acertar o ponto de chegada do seu salto numa mesa que se encontrava mais adiante. Na queda, sua coxa foi cortada pela quina da mesa, a poucos centimetros da sua genitalia. Tomada de pavor, constatou pela primeira vez o risco de vida no qual se colocava em ato. Depois que seu pai lhe trouxe de volta do medico com o corte suturado, sua mae chegou e, sentada ao seu lado na cama, lhe disse cheia de angustia "esta vendo no que isso vai dar?".

No trabalho de construçao em analise, o sujeito juntou estas duas experiencias a uma terceira, na qual por sua culpa seu pai batia em seu irmao, para construir uma cena com estes tres elementos.

Cena construida: -Do alto de uma arvore via seu pai espancando seu irmao. Instante em que a menina desaparecia do olhar do pai, servindo apenas de mero pretexto para o gozo sadico com o qual o pai se ocupava. Saltou do vazio, do alto da arvore, para ressurgir como objeto para o olhar da mae, deitada na cama "entre a vida e a morte".

A construçao desta cena operou a passagem do Edipo com o pai para o Edipo com a mae, efetivando a transposiçao do brilho agalmatico do Eu ideal do pai para o objeto dejeto da mae.

Localizar a posiçao de objeto como resposta ao desejo da Mae, permitiu situar a posiçao de gozo de se fazer ser para o Outro ao longo da sua vida. No campo do amor, do saber, e demais realizaçoes, sempre que a satisfaçao narcisica acelerava-se para um topo, automaticamente apresentava-se em ato como objeto dejeto para o olhar do Outro. A frase "entre a vida e a morte" tomou, assim, o sentido de: -situar o ser no topo brilhante do narcisismo para dele cair no poço escuro da devastaçao.

A construçao do mito edipico com a mae efetivou, passo a passo, um trabalho progressivo de reduçao das fantasias sexuais em direçao a um ponto central, resultando na construçao final da cena fantasmatica.

A fantasia fundamental encenava um gozo sexual perverso: -A menina gozava em se ver sendo vista pela mae que lhe ofertava como objeto sexual para o pai. Gozava "entre a vida e a morte": -como objeto precioso do gozo perverso e, ao mesmo tempo, objeto dejeto, devassada pela culpa desta satisfaçao.

O florescimento do mito edipico foi, assim, reduzido a um elemento. Um elemento misto -simbolico e imaginario- que envelopava o gozo em uma metafora. A frase "entre a vida e a morte" articulada a uma cena, fazia supor o gozo como resposta ao desejo da Mae.

O engano

Um passo mais alem do Edipo se efetivou com o desvelamento do engano que mantinha esta metafora sobre o gozo, evidenciando que o infantil como estrutura fixava a criança entre a mae e a mulher.

O engano sustentado por esta metafora se desvelou quando, por tras da cena, foi encontrada a evidencia de que a frase "entre a vida e a morte" nada mais era do que uma interpretaçao acerca da sexualidade feminina da mae, da mae como mulher objeto causa do desejo masculino.

Refazendo os ultimos passos da construçao da cena, recordou-se que tal frase tinha sido extraida de um dito da sua mae, quando esta lhe contara, ha muito tempo atras, como ocorrera a perda de um filho num aborto. A mae lhe dissera que, deitada na cama se esvaindo em sangue, nao chamou ninguem para ajuda-la. Deixou-se ficar "entre a vida e a morte" esperando seu marido que nao chegava, ainda que ja fosse tarde da noite. E completou dizendo com um tom decido, "se ele nao chegasse em tempo me encontraria morta".

Evidenciou-se naquele momento que o gozo secreto da sexualidade da mae abrigava uma verdadeira Medeia. A vida perdida do filho morto, a vida dos filhos que restariam sem mae, a vida do marido marcada por esta culpa, e sua propria vida, naquele momento em nada lhe importava, so o seu gozo extremo de odioenamoramento pelo seu parceiro.

A frase "entre a vida e a morte" retroagiu tambem para a terceira geraçao anterior, para a lembrança do lamento da sua mae, quando ela se recordava da avo materna. Dizia que nao sabia o que era ser cuidada pela sua mae, pois esta, apos o nascimento de cada filho passou a viver fechada no seu quarto, deitada na cama "entre a vida e a morte", adoecida por uma asma cronica.

Do enigma do desejo da Mae, ao qual a menina supunha responder com seu gozo, restou nada mais que um vazio. A metafora "entre a vida e a morte" nada dizia efetivamente do modo singular de gozo do sujeito, apenas alojava a criança como representante da verdade da parceria sexual do par familiar.

A extimidade do gozo feminino

O gozo desvestido das insignias do Outro, restou como um residuo de puro nao-sentido, em relaçao ao qual nenhuma pergunta mais era formulavel. Abriu-se, assim, o terreno de analise para o encontro com o inominavel. Encontro com o sitio de silencio pulsional, que apenas mantinha o semblante da dupla face do gozo: -o semblante terrorifico do Outro sem lei e do objeto devastado.

Pela instalaçao da posiçao de sujeito de desejo, sujeito que enuncia, portanto decide, fincada no proprio circuito pulsional, precipitou-se o encontro contingencial ultimo que operou a conclusao da cura.

A invençao do Nome de gozo "Mundana" rompeu a fixaçao que capturava o gozo na funçao da exceçao, fazendo-o retornar pela primeira vez a sua condiçao estrutural de extimidade. Encontro com o gozo feminino que inscreveu uma letra num ponto do impossivel, no inominavel do gozo. Inscriçao de uma letra que instituiu a linha limitrofe entre o gozo extimo e o furo no simbolico. Operou-se ai a ultrapassagem da logica do Todo para a logica do nao-Todo.

O percurso analitico demonstrou-se como uma longa preparaçao para romper a defesa estrutural em relaçao a extimidade do gozo. Defesa que mantinha o gozo feminino revestido pelo semblante do objeto mais-de-gozar, como parceiro do ao menos-Um nao submetido a castraçao.

A ultrapassagem da logica do Todo para a logica do nao-Todo operou uma reformulaçao na economia pulsional. Os impulsos de devorar e fazer-se devorado que alimentavam o enquadre sado-masoquista, foram revertidos para as fruiçoes de libido que resultam em satisfaçao erotica. Na logica do nao-Todo, os impulsos desvestidos dos semblantes da exceçao, passaram a fruir, desatrelados da barreira da defesa, em direçao aos fins ativo ou passivo da satisfaçao pulsional. Sendo que, no dinamismo pulsional, a prevalencia de fins passivos em um modo singular de gozo, articulado a um amor nao-Todo, melhor se presta a fruiçao do gozo feminino em sua extimidade.

18-novembro-2000