World Association of Psychoalanysis

 

UM AMOR FORA DOS LIMITES DA LEI

Elisa Alvarenga

Introducao

Esta plenaria dedicada ao passe, anunciada sob o tema "O novo amor", nos da a ocasiao de abordar, a partir da experiencia, o que acontece com o amor ao final de uma analise. "So ai pode surgir a significacao de um amor sem limite, dira Lacan, porque fora dos limites da lei." (1) O que seria este amor ? De que lei se trata aqui ?

O amor, durante a analise, e mesmo condicao para que haja analise, e o amor de transferencia. No sujeito neurotico, este amor esta estreitamente vinculado a crenca no pai, a fantasia fundamental - tal como construida por Freud na formula "uma crianca e espancada" - ao inconsciente, enfim. Dai as afirmacues de Lacan, de que, no final da analise, "a experiencia da fantasia fundamental se torna a pulsao" (2), ou "a experiencia do sujeito e reconduzida ao plano onde se pode presentificar, da realidade do inconsciente, a pulsao" (3). O amor, no final da analise, esta entao articulado a maneira como o sujeito vive a pulsao.

No Seminario "As formacues do inconsciente", Lacan chama de lei aquilo que se articula do significante, autorizado pelo Nome-do-Pai que, no nivel do Outro, como sede da lei, representa o Outro.

Em "A etica da psicanalise", ele nos da mais elementos para pensar o que e essa lei : a estrutura do inconsciente se regula segundo a lei do prazer e do desprazer, segundo a regra do desejo indestrutivel, avido de repeticao. "A relacao dialetica do desejo com a Lei faz nosso desejo nao arder senao numa relacao com a Lei, pela qual ele se torna desejo de morte." (4) Assim, a lei, que inicialmente seria aquela do principio do prazer, torna-se a exigencia de encontrar o que se repete, alem do principio do prazer. E dessa lei que o sujeito em analise padece, na compulsao a repeticao, nos "acting-out", na reacao terapeutica negativa.

No Seminario "O avesso da psicanalise", essa lei do inconsciente e formalizada no discurso do mestre, e o pai como figura da lei se torna, como nos diz Jacques-Alain Miller, um semblante. O Nome-do-Pai designa apenas o poder da palavra, que tem o efeito, sobre o corpo do ser falante, de mortificar o gozo. Ele e entao logificado, no Seminario do "Avesso", no significante mestre, herdeiro do Nome-do-Pai e mesmo dos Nomes-do-Pai, como uma pura funcao logica (5).

Neste Seminario, Lacan define a castracao como principio do significante mestre e situa o pai real como agente dessa operacao. A castracao nao e uma fantasia, e a causa do desejo e o seu produto. A fantasia domina a realidade do desejo articulada a lei do pai, do significante mestre.

O de que se trata, entao, numa analise, e de ir alem do pai enquanto agente da castracao, alem da lei do discurso do mestre, discurso do inconsciente: trata-se de passar da posicao de sujeito assujeitado ao significante mestre aquela do sujeito que, movido pelo objeto, causa do desejo, separa-se da lei do significante mestre, o que so e possivel depois de ter-se servido dela.

O encontro com a psicanalise

Uma analise que durou cerca de 12 anos, seguiu-se a duas tentativas anteriores, nas quais o sujeito se viu perdido nos labirintos do amor de transferencia. Uma psicoterapia "de orientacao analitica", como se dizia, antecedera o encontro com a psicanalise lacaniana, que suscitou o desejo de ir alem dos efeitos, sobretudo terapeuticos, obtidos ali.

Partiu entao do pais com o intuito de fazer uma tese universitaria, mas logo descobriu que o que buscava era uma bussola para sua clinica : instalada como psiquiatra, comecara a estudar psicanalise, mas nao sabia muito bem o que fazia. "A posteriori", da-se conta de que nao tinha entao como se autorizar.

Procurava, mais do que qualquer coisa, uma orientacao para sua vida : tendo passado anos em Franca rebeldia aos significantes mestres, encontrava-se sem referencias nas quais acreditar. Era assim que buscava, paradoxalmente, fazer existir o Outro : atacava-o, na tentativa de escapar a castracao.

O encontro, decisivo, com a orientacao lacaniana, se deu atraves do texto "A clinica do supereu", onde Jacques-Alain Miller nos apresenta o supereu na sua versao lacaniana de imperativo de gozo. O encontro com o significante do analista se deu na mesma direcao, quando assistiu, na Ecole de la Cause freudienne, a uma conferencia daquele que viria encarnar esta funcao. Embora nao entendesse muito do que ele dizia, foi pega nas malhas do significante da transferencia, que a representou para o significante qualquer do analista : ele saberia algo sobre o seu sofrimento. A suposicao de saber, instalada desde aquele momento, levou-a a iniciar ai uma analise, estancando sua errancia ao coloca-la a trabalho. No momento de fazer o passe, ela se deu conta que o significante do analista reunira dois tracos : a severidade suposta ao pai e o saber suposto a mae.

A entrada em analise

O inicio foi marcado pelo desgosto em relacao ao saber, manifesto em um sonho no qual esgotos escorriam das estantes, abarrotadas de livros, da sala de espera do analista. Sua questao, entao desconhecida para ela, que encontrava-se toda identificada do lado masculino das formulas da sexuacao - sujeito dividido pelo gozo falico - ja se manifestava, no entanto, em outro sonho do inicio da analise : o analista aparecia travestido, sob longa cabeleira de mulher.

A entrada em analise se deu apos um sonho em que contava, a uma analista particularmente severa, as historias das mil e uma noites, tal Scheherazade, que evitava assim sua morte. De fato, falar ao analista parecia-lhe a unica saida possivel do gozo mortifero, no qual se encontrava embaracada. Percebeu entao a vanidade de sua busca por um Outro do Outro, Um que a garantisse, com a consequente queda do analista de A a (a), do significante que o representava ao objeto (a). Esta queda, que ocorre no final da analise de maneira decisiva, e aqui o sinal de uma mudanca de discurso, que acontece no momento da entrada em analise : o sujeito passa do discurso do mestre, onde um significante o representa para o analista no lugar do Outro, ao discurso histerico, onde ele se pue a trabalho interrogando o significante mestre e produzindo saber. A destituicao subjetiva, que Lacan propue para o final da analise, e ai inscrita no ticket de entrada.

O imperativo do significante mestre e a fantasia

No momento da entrada em analise, percebe, entao, que a estrategia de substituicao, ate este momento preponderante em sua vida, estancava ali, com o isolamento de uma frase que configurava o imperativo do significante mestre, agente do discurso do inconsciente que fazia lei para ela : "Trair, ser punida." S1, trair, S2, ser punida, incidencia do Outro sobre o significante do sujeito experimentada como intenso sofrimento. Por tras dessa primeira frase, que acreditava ser a formula de sua fantasia, no momento da demanda de passe final, veio a descobrir uma segunda frase, que enunciava sua maneira de experimentar a castracao, fantasia fundamental, velada pela estrategia encenada na primeira frase.

S1     --->     S2     trair e ser punida $       <>       a      eu sou abandonada

A fantasia fundamental tem sua matriz no inicio de sua vida, por ocasiao de uma primeira perda real, a perda do pai aos 2 anos de idade. Nao se lembrava do fato, mas do que a mae lhe havia contado, de sua propria vontade de ir junto com ele. Este abandono pelo desejo da mae permaneceu velado pelo seu esforco de cuidar da castracao materna, ao qual ela se entrega, oferecendo-se falicamente para sustentar a imagem dessa primeira mulher idealizada, que seguiu carreira no estudo das letras. Essa idealizacao custou-lhe uma longa inibicao no trabalho intelectual criativo. Aos 7 anos, um afeto depressivo testemunha do luto por realizar, encoberto pela ideia, transmitida pela mae, de que teria que se haver com um pai muito severo, se nao o tivesse perdido.

Por volta dos 10 anos, a perda se reatualiza, quando a mae encontra um novo parceiro amoroso. Uma cena, desta epoca, vem exteriorizar sua posicao como objeto, olhar, excluido do par formado pela mae e seu novo companheiro, um homem que havia vivido e estudado no exterior. Esta prestes a entrar na sala, quando os ve refletidos na vidraca, dancando enamorados. Sentindo-se traida, vai entregar-se, desde a adolescencia, a busca de um substituto para o primeiro objeto de amor, repetindo a sua primeira frase : trair, S1 tomado de emprestimo ao Outro, ser punida, na decepcao que nao cessa de encontrar.

O gosto pelas linguas estrangeiras deve vir desta epoca, em que o casal conversava em outro idioma, do qual se via excluida. A decisao pela Medicina condensa um traco tomado emprestado ao padrasto com um antigo desejo da mae : salvar o pai de uma doenca mortal. A posicao falica de desafio ao pai, encontra ocasiao de decepcionar o substituto paterno escolhendo a psiquiatria, e logo, a psicanalise.

O gosto pelo estrangeiro determinara tambem, alguns anos depois, a escolha de um companheiro, ao qual, apos algumas idas e vindas e varios anos de analise, permanecera ligada por um novo laco.

O objeto mais-de-gozo e o sintoma

Os sintomas no corpo, frequentes desde a infancia, podem ser articulados a fantasia, onde o sujeito se reduz a um objeto que faz par com o Outro. O trajeto da pulsao contorna o objeto, produzindo uma satisfacao masoquista no sintoma. A reducao do sujeito a uma dor de ouvido, ou seja, a uma borda pulsional, fazendo apelo ao Outro, ocorrera, por exemplo, por ocasiao do desvio do desejo materno para o novo companheiro. O objeto voz aparece como voz do Outro, encarnado pelo casal que conversava em lingua estrangeira, assemantica para o sujeito, ao mesmo tempo fazendo supor ai o maximo de sentido.

O objeto olhar, central na construcao da fantasia, indicava tambem o trajeto pulsional : de objeto excluido do par parental, o sujeito se faz ver, na tentativa de recuperar este olhar sobre si. Se permanece na posicao de olhar, espectador excluido da cena, o gozo e recuperado no sintoma, desta vez a nivel dos olhos, convertendo ao orgao o mal-estar experimentado pelo sujeito.

O sintoma central vai se instalar apos o casamento, no momento de uma tentativa de separacao do Outro. Uma acentuada anorexia, de longa duracao, instaura-se quando, identificada ao objeto abandonado, repete a sua primeira frase. Este sintoma, tentativa de sustentar o desejo, a duras penas, nao deixa de fazer apelo ao Outro, a quem angustia, com a estrategia de recusar o que ele quer lhe dar. Trata-se de um retorno ao primeiro Outro : da fantasia de fazer-se devorar por seu amor, passa a posicao de comer ou nao comer, colocando o objeto oral, oferecido pela mae, no primeiro plano. A anorexia, real, torna-se uma forma de recusa da feminilidade, do corpo, da castracao, manifestando-se, enquanto mental, no nao querer nada saber sobre tudo isso. Anos se passaram nessa tentativa, va, de separar-se do Outro, que convocava com sua demanda de amor, sem nada poder receber. A castracao era encontrada a cada fracasso na sua procura, sintomatica, do parceiro que a faria mulher.

O trabalho de analise

E assim que chega a analise, devastada pelo imperativo de gozo do supereu. O primeiro ato do analista foi dizer-lhe nao, encarnando uma funcao ate ai em sofrimento : o pai severo foi reencontrado no semblante que ele inicialmente encarnou. Mais do que uma funcao significante, tratava-se da voz afona do supereu, aquele que exige o gozo, e assim o localiza, sem nenhuma concessao ao sofrimento do sujeito. Era como se ele dissesse : coma o pao que voce amassou. O efeito foi que, essa voz do supereu, encarnada aqui e ali nas fontes de devastacao para o sujeito, se concentrou na voz do analista, permitindo que transferisse o seu gozo masoquista para a neurose de transferencia. Em vez de continuar andando em circulos, passou a dar voltas na superficie de um toro.

Descobriu a logica implacavel do inconsciente, cujos efeitos, sobre o corpo e nos afetos, a surpreendeu. Um efeito depressivo advem, com a mortificacao da libido pelo trabalho significante. A culpa ligada ao excesso de gozo da lugar aquela devida a falta.

Devendo retornar ao pais de origem, ao final do trabalho universitario, vai continuar sua analise em fatias, numa temporalidade propria ao inconsciente. No momento de retorno ao Brasil, e portanto, de uma separacao forcada do analista, demanda fazer o passe na entrada da ECF, o que funcionou como um retorno sobre o caminho percorrido. Houve ai uma tentativa de verificacao da propria analise, para saber onde e que se encontrava. Os efeitos foram o desprendimento de um certo saber, construido ate ai, com o vislumbre do lugar ocupado pelo analista e uma posicao de trabalho decidida.

Engaja-se na construcao da EBP, da qual se torna membro, e instala-se como analista, orientada, desta vez, por seu trabalho de analise. Ganhos terapeuticos sao inegaveis : da posicao de ser o falo, desprovida de bens e atributos da feminilidade, pode vir a ter algo : o seu trabalho, um companheiro, um filho. Continua a analise, sempre buscando no analista um sustento para o seu desejo, ate um momento crucial, quase 10 anos apos o inicio, quando um final pode ser vislumbrado.

O sujeito-suposto-saber e o objeto (a)

Uma primeira queda do sujeito-suposto-saber manifesta-se por ocasiao de uma crise na Associacao Mundial de Psicanalise. O analista, que ate entao servira como referencia fundamental, cai do lugar de sujeito-suposto-saber fazer o pai, primeira queda de uma serie, revelando a falta de garantia que ela tentava acobertar com a transferencia. A analisante constatou, entao, que o analista nao podia dar-lhe o saber que esperava obter, naquele momento, sobre ser mae. A questao da feminilidade escondia-se por tras daquela sobre a maternidade, da mesma maneira que o sujeito-suposto-saber se encontrava ate aqui articulado ao semblante paterno.

Minha hipotese e que as declinacues do sujeito-suposto-saber, tais como se dao em uma analise, sao estritamente correlativas do isolamento do objeto como consistencia logica. Pois, o que e o sujeito-suposto-saber, senao o sujeito do inconsciente, a trabalho, como efeito do enderecamento de um significante que representa o sujeito a um significante qualquer do analista ? No inicio de uma analise, o sujeito, representado pelo significante do seu sintoma, endereca-se ao analista, desdobrando a cadeia de significantes na associacao dita livre.

         S          --->         Sq S(S1, S2...Sn)

O algoritmo da transferencia, introduzido por Lacan na "Proposicao" (6), nos mostra que o sujeito-suposto-saber e um efeito desta relacao, estabelecida entre o significante do analisante e o do analista. No entanto, o analista, representado pelo significante qualquer, devera cair para o lugar do pequeno a : "O analisante so termina ao fazer do objeto (a) o representante da representacao do analista." (7) Para alem de suas vestimentas imaginarias, semblantes que o analista pode encarnar para um sujeito, este o vera cair do lugar do Outro do saber ao lugar do (a), objeto libidinal.

A cada fatia de analise, ate entao, descobrira um elemento do seu quebra cabeca : a outra mulher, confundida com uma figura idealizada do saber ; o pai, tentativa de garantia contra o gozo falico ; o objeto, tampao para a castracao, sob as especies do nada, do objeto oral, do filho. Com o olhar, manifestava-se sobretudo a inibicao quanto ao saber. Embora muito curiosa, e mesmo bulimica quanto ao saber, este era do Outro, que ela tornava consistente ao colocar-se na condicao de espectadora, excluida da cena onde o saber se produzia. Esta fantasia mantinha-a na anorexia mental, tal como Lacan a apresenta : as ideias eram sempre do Outro.

Este momento, que chamei de passagem alem do pai, tem como consequencia, na sua vida, uma emergencia pulsional, um retorno da libido ate entao mortificada ao longo do trabalho de analise. Esta libido exige agora satisfacao, para alem da satisfacao masoquista ligada a logica do significante. E surpreendida por um novo desejo, que torna sua vida mais intensa, mas sem a garantia do Outro para sustenta-la em seu caminho. Da garantia da fantasia, onde o sujeito se articulava ao objeto que se propunha a ser para tampar a falta do Outro - ($ <> a) - deve agora avancar diante de um Outro barrado, ao qual falta um significante que lhe diga o que ele e. O sujeito parceiro deste Outro barrado nao e mais o sujeito representado por um significante, mas o sujeito as voltas com a pulsao - (A barrado <> $).

A transferencia negativa

Na proxima fatia de analise, alguns meses depois, revela-se a transferencia negativa, correlata da primeira barra sobre o sujeito-suposto-saber : o analista esta sob suspeita. Cai a mascara amorosa e o sujeito se interroga, na tentativa de apreender o saber depositado na experiencia. O saber de que se trata de agora em diante e o saber que o sujeito devera elaborar. Sabe que nao ha retorno possivel, mas nao ve ainda a saida : vive um tempo de angustia. Esta fatia se conclui com um pensamento, ridiculo, que lhe vem a cabeca e a desconcerta : o analista e desta vez dessuposto na figura do velho pai da psicanalise, enquanto a analisante se apresenta na pele de uma analista conhecida, na opiniao de Freud, como mulher incuravel.

Do semblante de pai severo, passando pela funcao de pai real, aquele que produz efeitos por suas interpretacues, o analista caiu a posicao de objeto libidinal, concentrando em si, paradoxalmente, o agalma e o kakon, objeto que a analisante queria vorazmente incorporar e destruir : "Eu te amo, mas porque inexplicavelmente amo em ti algo mais do que tu - o objeto pequeno (a), eu te mutilo." (8)

O analista se torna, temporariamente, um objeto mau. O ruido que faz, rotineiramente, durante as sessues, retorna no real, sob a forma de um zumbido que a atormenta. Ele se torna um ponto negro, um corpo estranho, do qual a analisante quer se livrar, mas teme se separar. Esta aventura libidinal, onde a pulsao se revela nas suas mais diversas formas - amor, odio, sadismo, masoquismo, ver, fazer-se ver, ouvir, fazer-se ouvir, devorar, ser devorado, expulsar, fazer-se expulsar -, excede qualquer desejo terapeutico, que tentaria acalmar a pulsao para aliviar o sujeito.

A formula vazia

A medida que caem as garantias, trabalha melhor na Escola, desembaracada de alguns ideais. No proximo periodo de analise, a discussao de um caso, em supervisao, com outro analista, e retomada na analise, permitindo-lhe fechar mais uma volta. Ao final deste periodo, e surpreendida por um sonho : ela rouba uma formula, escrita em um pedaco de papel, das maos de um membro da Escola, portador de atributos falicos. Esta formula, suposta ensinar-lhe como fazer existir a relacao sexual, nao lhe ensina, no entanto, exatamente aquilo que quer. A maneira da formula da trimetilamina, que se apresenta a Freud no momento em que se depara com o horror da castracao, este pedaco de papel, onde nada esta de fato escrito, apresenta-se no sonho como uma formula para escrever a relacao sexual.

Avisada que esta das artimanhas, das pecas que lhe prega o inconsciente, nao fica por isso menos perplexa diante deste sonho-interpretacao, no sentido em que, como o indica Jacques-Alain Miller, o inconsciente interpreta. Esta ainda as voltas com este sonho, quando um outro a surpreende, claramente alusivo a separacao do analista : ele mesmo lhe entrega, deixando-a so, um personagem, condensacao do analista com alguem de quem deve se separar. Nao tem mais com quem falar. Como um S2, este sonho resignifica o primeiro, da formula vazia : pensa inicialmente que esta formula, nao e o saber da psicanalise que vai lhe dar, mas ela mesma e quem deve construi-la, encontrando sua propria solucao. Conclui, em seguida : esta formula nao existe. Mais uma vez, dessupue o saber ao Outro : o Outro da formula nao existe. O modelo anorexico de roubar as ideias dos outros, segundo o exemplo dado por Lacan na "Direcao da cura" (9) - aqui, roubar a formula ao Outro - perde sua razao de ser.

No proximo encontro com o analista, diz-lhe do desejo de fazer o passe, antigo desejo, que nao havia ainda encontrado o momento clinico, na analise, para ser colocado. Ha ai uma aposta : a conclusao e a separacao definitivas da analise so vao se efetivar com o ato de passar pelo dispositivo.

O passe

Entre a demanda de passe e a entrada no procedimento, vem um terceiro sonho : ela nada, no mar, agarrada a um submarino. Tem medo de se soltar e ficar perdida. De repente, o submarino esta em terra firme, aberto, rodeado de gente. Desta vez o sonho lhe parece limpido. A agua do mar, como em varias formacues do inconsciente, representa o gozo, e o submarino o saber inconsciente, suposto, do qual ela teme se soltar. Gozo do saber, portanto. O submarino aberto, sobre a terra, rodeado de gente, representa seu desejo de exposicao de saber, de transmissao no dispositivo do passe.

Ao entrar no procedimento, tem, efetivamente, dificuldades em se soltar deste saber e de separar-se do analista. Um afeto depressivo se faz presente.

O encontro, contingente, com a figura d,A mulher, ou ainda, d,A analista, ocorre apos o primeiro testemunho junto aos passadores. Houve ai um verdadeiro cruzamento entre a pratica como analista e o testemunho no passe. A experiencia clinica colocou-a diante de um limite enquanto analista : o desejo de curar, ate entao inconsciente, que se manifestava numa posicao de dedicacao, as vezes cega, a clinica, deu lugar ao que pode reconhecer depois como desejo do analista. Dessas figuras d,A mulher e d,A analista, conclui que e melhor guardar distancia. Cessa a demanda, insaciavel, nesse encontro com a mulher nao-toda, marcada pela castracao, que encontramos do lado feminino das formulas da sexuacao, no matema do A barrado (10). Houve ai o assentimento ao A barrado de uma analista nao toda, numa incidencia do passe sobre a sua pratica e vice-versa : o efeito de um encontro, na clinica, sobre o passe. Num segundo testemunho, a pedido do cartel do passe, pode transmitir que saiu dessa experiencia uma analista.

A travessia da fantasia e o nome de gozo

Ha muito cessara para ela o imperativo do significante mestre formulado na primeira frase, e o sujeito buscava nomear a sua posicao de gozo na fantasia fundamental. Pois e preciso distinguir a producao do objeto a como mais de gozo, nas suas multiplas apresentacues, da producao do objeto (a) como vazio topologico, lugar do objeto ao qual se pode dar um nome de gozo. E depois da distincao do sujeito em relacao ao (a), nomeado pela letra de gozo, que a experiencia da fantasia fundamental se torna a pulsao.

Uma noite, pouco antes da entrada no procedimento do passe, ocorreu-lhe, de repente, que o seu nome de gozo nada mais era do que o abandono. Da fantasia fundamental : "Eu sou abandonada", posicao na qual gozava como objeto do Outro, havia passado a posicao de objeto causa do desejo, abandonando o gozo falico, no encontro com o S(A) barrado. Na travessia da fantasia o sujeito se desprendera do gozo masoquista do objeto abandonado, consentindo a posicao de objeto que se abandona, como causa, ao desejo do Outro. Encontra entao um gozo para-alem do falo, "na escala invertida da lei do desejo" (11).

Se durante a analise a preferencia dada ao inconsciente tendia a recobrir, com o simbolico, todo o imaginario e o real, um outro corte foi necessario ao final, para restaurar o no borromeano em sua forma original, como o diz Lacan (12). Isto a impediu de continuar, infinitamente, a contar mais uma historia. Nao havia mais o que dizer, mas muito o que fazer, e escrever. Houve entao, nas ultimas entrevistas com o analista, aquilo que Lacan chamou de contra-psicanalise, no seu Seminario "L,insu que sait de l,une-bevue s,aile a mourre". O jogo de palavras ai contido nos diz que "o insucesso do inconsciente e o amor". Dai a necessidade da contra-psicanalise, contra o amor do inconsciente que fazia lei para o sujeito, satisfazendo-se na fantasia fundamental. E fora dos limites dessa lei que o novo amor pode viver.

Talvez por isso Lacan dissesse, no pequeno texto "O Outro falta", que "pode-se contentar em ser Outro como todo mundo, apos uma vida passada tentando se-lo apesar da Lei" (13).