World Association of Psychoalanysis

 

A CAUSA NA TRANSMISS O DO PASSE

Nora Goncalves

Agradeco ao secretariado do passe, representado por C.A. Niceas, o convite para compor esta mesa, ao lado das duas mais novas AE da EBP, Leda Guimaraes e Elisa Alvarenga, nesse XI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, o que muito me alegrou.

A pratica psicanalitica supue que aquele que demanda uma analise, passe do "nao querer saber nada disso", a um "desejo de saber", indice de que ha ali um analista, como indica Lacan e que Miller teoriza no texto, "El pase del psicoanalisis hacia la ciencia : el deseo de saber".

Essa passagem de um "nao querer saber" a "querer saber" atravessa varias etapas numa analise, e esta diretamente relacionada a questao da causa. Lacan, no escrito "Posicao do inconsciente" diz, "o efeito de linguagem e a causa introduzida no sujeito. Por esse efeito, ele nao e causa dele mesmo, mas traz em si o germe da causa que o cinde, pois sua causa e o significante sem o qual nao haveria nenhum sujeito no real".

Por outro lado, sabe-se do principio etico da formacao do psicanalista em Lacan, de que "o analista so se autoriza dele mesmo", pode-se dizer, entao, que se o sujeito nao e causa dele mesmo, e porque ele se autoriza da causa que o cinde.

De onde vem este significante ? Se nao e dele mesmo, vem do Outro, mas o que se tem na teoria psicanalitica e justamente a falta de significante no discurso do Outro, e um sujeito que chega na analise na posicao de pensar ser objeto causa do desejo do Outro ; espera-se que ele, entao, na analise, ocupe posicao de sujeito.

Lacan articula no ""Trieb" de Freud e do desejo do psicanalista", a relacao do efeito a causa : "A pulsao divide o sujeito e o desejo, o qual so se sustenta pela relacao, que ele desconhece, dessa divisao com um objeto que a causa".

O objeto causa da divisao, o pequeno (a), "esse obscuro objeto de desejo", um titulo de Bunuel, e a resposta a falta do atributo, a falta de significante no discurso do Outro, um pequeno grande engano que e uma verdade e que pode ser verificada no passe.

Encontra-se, algumas vezes, a Escola nesse lugar, de obscuro objeto de desejo, preenchendo as demandas, as fantasias e os desencontros do sujeito. Escuta-se, tambem, muitas vezes, nos depoimentos que chegam ao cartel, passantes que se dirigem aos passadores como se estivessem no procedimento analitico, totalmente ao encargo do Outro. E neste lugar do Outro que eles colocam a Escola, como para que ela possa se encarregar deles.

Em alguns relatos de passes que chegam ao cartel, todavia se constata que houve direcao da cura, que os elementos que proporcionam a saida da analise, estao, la, ordenados, e com isso a possibilidade de um futuro AE.

Tanto que, na minha perspectiva, quando um cartel do passe na entrada indica ao Conselho um membro da Escola, esta fazendo uma aposta em um futuro AE.

Desse modo, espera-se, no passe, uma retrospectiva do passante sobre sua analise, que ele possa ter extraido saber de sua experiencia analitica, que possa vislumbrar de onde partiu e o ponto ate onde chegou e isso vale tanto para o passe na entrada como para o passe conclusivo.

Assim, o momento de passe testemunha a solucao singular e contingente do analisante ao impossivel da relacao sexual. Um sujeito que e movimentado pelo que e causado, pelo (a), solucao ao (x) do desejo, da incognita, obscuro objeto causa.

A funcao "desejo do analista" se efetiva, ali, na cura, com sua emergencia, no momento de passe. Com a separacao do objeto (a), causa do desejo, e captada a posicao de gozo do sujeito, via repeticao, por um modo de apresentacao desse gozo, o objeto (a), invencao do analisante para tamponar a falta.

O desejo do analista e o desejo de "obter a diferenca absoluta", como ensina Lacan no Seminario XI, a diferenca absoluta dessa marca, marca de gozo no sujeito. Um desejo de saber que nao e mais suposto, um querer saber, como lembra Lacan : "Ha analista, quando esse desejo de saber lhe vem."

O discurso do analista sustenta-se disso, do saber no lugar da verdade como causa, e o analista no lugar do agente "deixa-se fazer (a), sem ai estar". Assim, nessa experiencia, "o analista sustenta um discurso e este discurso o sustenta".

Ja o AE (Analista da Escola), sustenta-se de que nao ha garantia no Outro, pois um discurso o sustenta, como vimos, ele sustenta esse discurso, e por sua vez esse discurso sustenta a Escola, poder-se-ia "aplicar-lhe o S(A barrado)" - matema da ausencia de garantia no Outro, uma impossibilidade estrutural, resultado de sua analise, de sua transmissao no passe, que esta, por isso mesmo, em relacao a Escola, em uma posicao de cuidar para que nao se feche nela esse lugar da falta de garantia do Outro.

Nas conferencias sobre "As entradas em analise", Eric Laurent levanta a questao de que "alguem tem que ceder sobre seu gozo e nao sobre o desejo, o que implica em que ceder sobre o gozo e ceder sobre o porque"... "nao somos soldados de Deus, como os jesuitas, e nao somos soldados da causa"Š

Miller se pergunta no "El Banquete de los analistas", "se a causa analitica nao seria finalmente um ideal ?", ele diz, tambem, que "o desejo do analista e impensavel sem o (a), sem a causa do desejo de saber, isto e, se ao final de uma analise o sujeito nao logrou circunscrever a causa do horror de saber (...) o que pue a esse sujeito novo, transformado, em condicues de o incitar a trabalhar para conseguir saber", poder-se-ia dizer tambem, passar da impotencia, do nao poder saber, ao impossivel de saber, porem, que se pode dizer. Para concluir, diria que o analista se encarrega do que produz, do seu dizer, do seu ato. E tambem da Escola, se ele ai esta... Uma Escola de analistas e de analisantes - e uma Escola - onde nao ha suposicao, onde nao ha pergunta sobre "o que ela quer de mim", e uma Escola onde seus membros tem que inventar saber, a cada momento, a cada texto, a cada Encontro.

Sera isso um novo modo de amar ? Um novo amor ?

 


Referencias bibliograficas