World Association of Psychoalanysis

 

DE UMA ESCOLA PARCEIRO-SINTOMA A UM AMOR MAIS DIGNO

Leda Guimaraes

O desejo de Escola, um trabalho para a Escola, a sustentacao de uma funcao na Escola, testemunham uma relacao do sujeito a psicanalise, que so se mantem sobre o lastro de uma economia libidinal.

Para um sujeito, a operacao do final de analise rompeu a fixacao que havia mantido a Escola como parceiro-sintoma no dinamismo pulsional, e instituiu um novo enodamento, como bem formulou Lacan (1), pela via de um amor mais digno.

Situarei neste testemunho dois momentos que tocaram o lastro vivo da relacao a causa analitica. A experiencia da entrada pelo passe, atraves da qual o sujeito recebeu a indicacao para membro da EBP, e o passe clinico que resultou na nomeacao de AE e no desejo de sustentacao desta funcao.

A experiencia da entrada pelo passe

Na ocasiao da fundacao da EBP o sujeito recusou o convite para integrar a lista dos membros fundadores que dariam partida ao trabalho da Escola, pois desejava ingressar na Escola atraves do dispositivo do passe.

A relacao com a causa analitica havia sido instituida neste sujeito, antes mesmo da sua entrada em analise, constituindo-se como uma transferencia previa a psicanalise, da qual emergiu a articulacao ao Significante qualquer (Sq) do analista.

A relacao do sujeito a causa analitica resultou numa posicao politica institucional, na qual sustentava um desejo de trabalhar pela fundacao de uma Escola no Brasil assentada no passe. Desejo que adveio como uma consequencia extraida do ensino de Lacan, que instituia o passe como o recurso indispensavel para fazer da instituicao psicanalitica uma Escola digna do seu nome. Desde essa implicacao subjetiva a causa analitica, tomava para si o dever etico de verificar o proprio dispositivo pelo qual havia trabalhado, pois fundar uma Escola no Brasil assentada no passe equivalia, para esse sujeito, a decisao de entrar na Escola pela via do passe.

A instalacao do dispositivo do passe na fundacao da Escola no Brasil, incidiu diretamente no laco que articulava a transferencia a causa analitica, produzindo no sujeito um efeito fundamental. Efeito que foi desdobrado em dois tempos : no momento da fundacao da EBP, e no momento posterior da passagem pelo dispositivo do passe.

1º tempo : "O pai morreu"

O momento da fundacao da EBP efetivou-se como um encontro com o real que sustentava o lastro pulsional da relacao a causa analitica. Encontro com o real que a interpretacao do inconsciente denunciou em um sonho. Na noite que se seguiu ao ato de fundacao da Escola no Brasil, o sujeito acordou de um sonho, que era apenas uma frase, "o pai morreu". Frase de puro nao-sentido, mas que comportava um valor fulminante pois, sob o efeito dessa frase, o sujeito chorava copiosamente, experimentando ao mesmo tempo uma dor profunda de luto e uma alegria intensa.

No processo analitico o sujeito buscou extrair, do campo do nao-sentido, os efeitos analiticos deste encontro com o real. A frase "o pai morreu" denunciou e produziu a queda do Ideal do eu sustentado na identificacao central ao pai. Constatou, perplexa, que a impostura falica do Mestre, contra o qual lutara ao longo da sua vida, nada mais era do que o traco identificatorio que secretamente impulsionava seu desafio histerico. Lutara na verdade contra si mesma, quando se inflava de furor feminista contra seu pai na adolescencia, contra o acento sadico do desejo masculino nos homens, contra a enfatuacao de saber que localizava em seus colegas da psicanalise.

Constatou que sua sustentacao de desejo, no trabalho pela causa analitica, era alimentado pelo gozo que mantinha a identificacao central ao pai. Deste gozo extraia a satisfacao sadica secreta em impor imperativamente seu desejo sobre seus colegas. Sob um falso semblante de mutualismo lancava seu golpe certeiro na falha do Mestre, para dele erguer-se como o Modelo Ideal a ser seguido por todos.

Mas o efeito imediato desse apogeu narcisico, era a experimentacao devastadora da exclusao. Alojar o gozo no plano Ideal da excecao falica, se convertia imediatamente na satisfacao masoquista do sentimento de culpa, em experimentar-se "a mais boba de todos". Alternancia sado-masoquista que ate entao havia prevalecido em ato, na sua posicao politica institucional, e que o sujeito so pode subjetivar em analise a partir do efeito subjetivo produzido pela fundacao da Escola no Brasil. O trabalho de subjetivacao desse encontro com o real precipitou a construcao da fantasia fundamental, e o sujeito chegou ate os passadores decidida a falar com entusiasmo desses progressos analiticos.

2º tempo : o testemunho da entrada pelo passe

O testemunho apresentado aos passadores deslocou o ponto de mira do processo analitico, que ate entao estava dirigido, na transferencia, para a questao que fazia enigma. Falar do seu processo de analise, fora do dispositivo analitico, permitiu localizar o movimento tangencial, que a alienacao na transferencia produzia, em direcao a vertente infinita da fuga de sentido. Falar ali, no dispositivo do passe, sustentada mais firmemente na relacao a psicanalise, do que na transferencia ao analista, permitiu deslocar o ponto de mira do processo analitico para a direcao centripeta das bordas do silencio do real do gozo.

Do depoimento apresentado aos passadores o sujeito extraiu tres balizas que circunscreviam as bordas do silencio :

- o gozo de fazer-se objeto devastada na parceria sexual, que a construcao da fantasia nao alterou ;

- o gozo que intervinha na pratica clinica fisgando o sujeito na contra-transferencia ;

- o gozo que foi deslocado do ato sado-masoquista na posicao politica institucional para a emergencia da angustia.

Tres balizas dirigidas para um so ponto de silencio, para o nucleo real do objeto causa.

A passagem pelo dispositivo do passe, desde a decisao da entrada no dispositivo ate a formulacao do depoimento aos passadores, incidiu assim diretamente no lastro da economia pulsional que mantinha o enodamento entre a transferencia e a relacao a causa analitica. Duas consequencias analiticas fundamentais dai se depreenderam :

- o desvelamento da fixacao que mantinha a Escola como parceiro-sintoma ;

- a emergencia da inconsistencia do Outro que antecipou a eminencia da queda do SsS.

Uma Escola parceiro-sintoma

O enquadramento fantasmatico fixava o gozo numa biparticao sexual, alojando o acento sadico na posicao masculina e a devastacao masoquista no gozo feminino. Alternancia que fazia prevalecer uma satisfacao sadica masculina no desafio histerico dirigido o parceiro sexual, mas que, em ultima instancia, efetivava uma satisfacao masoquista de fazer-se objeto devastado para o Outro.

Tal dinamismo pulsional, proprio a condicao estrutural humana, fixava o lastro da economia libidinal ali onde uma posicao de desejo operava nas escolhas do sujeito na vida. Ali onde um desejo era firmemente sustentado, uma infiltracao de gozo ai se atrelava, pela incidencia do objeto causa desse desejo.

Sobre a base desse dinamismo pulsional, o desejo sustentado numa Escola, da qual dependia sua formacao psicanalitica, desejo ancorado ao objeto causa, fixava, assim, na satisfacao erotica do sujeito, uma Escola parceiro-sintoma.

Desde a logica do Todo, o gozo capturado na funcao da excecao projetava no enquadramento fantasmatico da Escola, o cenario do Todo do qual se erguiam os semblantes da dupla face da excecao : o semblante do ao menos um nao submetido a castracao, e o semblante do objeto devastado. Dupla face do parceiro-sintoma que mantinha o lastro real da identificacao primaria ao Pai. Ali onde a identificacao narcisica erguia, naquele que portava um traco de excepcionalidade, o semblante do ao menos um nao submetido a castracao, o objeto dejeto ai gozava escondido sob o manto das suas vestes majestosas.

Numa Escola parceiro-sintoma, as tres versues do Pai, formalizadas por Lacan no seminario "O avesso da psicanalise" (2), tragavam com seu poder ilimitado o objeto adormecido no cenario do gozo :

- O semblante do Pai todo-amor revestia a funcao do Mestre, do qual o filho fascinado esperava obter um saber que aplacasse sua castracao.

- O semblante do Pai da lei, do qual o filho desprotegido apelava por uma regulacao distributiva do gozo, que barrasse a rivalidade da irmandade.

- O semblante do Pai feroz, que, siderado em sua vontade de gozo, nao dava ouvidos as suplicas de clemencia do seu filho desvalido.

Tres versues da excecao que fixavam na erotica da Escola a repeticao do circuito pulsional. Ali onde o excesso de gozo basculava, desde o fascinio narcisico ao poder falico Ideal do lider, ate o extremo oposto, onde o traco da excepcionalidade se convertia em exclusao devastadora, impulsionando a devoracao antropofagica do Pai real.

A forca operativa de um desejo

A passagem pelo dispositivo da entrada pelo passe confrontou o sujeito com o gozo fixado numa Escola parceiro-sintoma. Aspirado no buraco do silencio, este gozo escapava das possibilidades de uma formalizacao, e ali, ao ser tocado, no ponto da inconsistencia do Outro, esse gozo tendeu para um movimento de aceleracao logo apos a saida do dispositivo do passe.

Por alguns momentos o sujeito era sobressaltado pelo horror de receber um Nao do julgamento do cartel. Perspectiva que projetava no cartel do passe o semblante do Outro feroz de gozo, que fazia incidir sobre o objeto devastado um veredicto de exclusao. Projecao paranoica do imperativo do supereu, o qual so foi extraido da voz silenciosa, na operacao do final de analise, pelo nome de gozo "Mundana". Perspectiva que fazia prevalecer sobre o depoimento do sujeito, apresentado no dispositivo do passe, um valor de objeto para a lei insensata do Outro-Escola.

Ate mesmo, nas primeiras sessues de retorno ao dispositivo analitico, nada queria dizer para a analista acerca do que havia falado aos passadores. Uma posicao depressiva, cultivada pelo masoquismo erogeno da culpa, articulada-se a eminencia da queda do SsS, diante da inconsistencia do Outro. Este excesso de gozo alternava-se do acento depressivo para uma exacerbacao maniaca. Tal acento maniaco tendia no sentido de oferecer a Escola um testemunho publico da entrada pelo passe, utilizando o saber, que foi elaborado fora do dispositivo analitico, como uma defesa contra o real, sobre a base do desmentido : "Nao preciso do Outro para saber de mim."

Ainda que o objeto causa refreasse o desejo no processo analitico, o sujeito ja estava desperto, diante da sua implicacao subjetiva, nesses efeitos de aceleracao de gozo. Sua posicao etica implicava na decisao de barrar os impulsos que tendiam para um "acting-out". Mantendo o esforco para reconectar-se a transferencia, o sujeito decidiu confrontar-se com a inconsistencia do Outro no dispositivo analitico. Desde essa decisao etica, um ato analitico incidiu na articulacao entre o desejo e o gozo, fazendo prevalecer a forca operativa do desejo, em detrimento dos impulsos que advinham do objeto causa, ao qual o desejo se mantinha ancorado. O ato analitico incidiu na direcao que levou a analise ao seu desfecho final, efetivando, na conclusao da cura, a extracao do objeto causa de desejo.

Um amor mais digno

As palavras de amor, que advem do ancoramento do desejo ao objeto causa, resultam, nessa "relacao inconveniente", na "abundancia do falar a toa". Seria preciso que, no final de analise, o troco que se desprende dessa articulacao humana, se ligasse a algo diferente, "para que ai o amor se fizesse mais digno". Retomo aqui esta formulacao de Lacan na "Carta aos Italianos" (3), para dela tentar dizer um pouco mais.

O simbolico e o real, que o imaginario enlaca para que nao os deixe cair, requerem um enodamento diferente, para que se produza o desejo do analista.

Ao terminar sua analise, o sujeito encerrou sua ultima sessao dizendo para a analista da sua profunda gratidao pela psicanalise e por ela haver sustentado com firmeza sua funcao de analista. Última sessao, na qual o sujeito formulou no nivel do bem-dizer a primeira expressao de um amor mais digno : gratidao, por ter sido recebida, pelo dispositivo analitico, da maneira mais digna como nunca antes havia sido recebida na vida, como sujeito de desejo. O dom da gratidao pelo que lhe foi transmitido, se converteu, naquele momento, no dom da oferta de um desejo a transmitir. Havia se efetivado o desfecho da operacao analitica : a transmissao de um desejo inedito.

A extracao do objeto da funcao de causa do desejo, rompeu o enodamento imaginario que fixava, no enquadre fantasmatico, o sadismo do lado do desejo e o masoquismo do lado da posicao de objeto. Operou-se ali uma disjuncao radical entre o desejo e o gozo, situando o gozo no lado da pulsao e o desejo no lado do simbolico.

Estes dois elementos heterogeneos passaram a ser enodados por uma nova articulacao. O mais-de-gozar, que antes se mantinha fixado no mesmo lugar, de causa e destino, foi extraido do circuito da repeticao, passando a fruir pelas vicissitudes do novo, injetando libido na sustentacao de desejo. Nesta nova articulacao entre o desejo e o mais-de-gozar, o sujeito pode sustentar com firmeza, pela primeira vez, a forca operativa de um desejo, que toma como ponto de partida e ponto de chegada a hiancia simbolica que o estrutura.

Desde esse novo enodamento entre o simbolico e o real, o ato analitico se efetua como signo de um amor mais digno.

O sintoma que resta como modo singular de gozo, ai so encontra lugar, na sustentacao de desejo como analista na clinica e AE na Escola, sob o modo de um estilo de oferta deste amor mais digno.

 


(1) Lacan, Jacques, "Nota italiana", "Opcao Lacaniana", nº 11, Sao Paulo, Eolia, novembro de 1994, p. 7.
(2) Lacan, Jacques, "O Seminario, Livro 17, O avesso da psicanalise", Rio de Janeiro, Zahar, 1992.
(3) Lacan, Jacques, "Nota italiana", "op. cit."