World Association of Psychoalanysis

 

As palavras e os corpos... Corpo na psicose

Elisa Alvarenga

 

Em abril de 1998, na Bahia, acontecia o VIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, sobre o tema, « Rumo ao âmago da cura psicanalítica », durante o qual J.A. Miller realizou um Seminário sob o título « O osso de uma cura », publicado no Brasil o ano passado. Foi a partir da questão, abordada por Miller, das relações entre o significante e o gozo, que o tema do IX Encontro Brasileiro - a realizar-se de 21 a 25 de abril de 1999 em Belo Horizonte - pôde ser pensado, e finalmente anunciado: « As palavras e os corpos ». Se há, em « As palavras e os corpos », uma ressonância com a obra de Michel Foucault « As palavras e as coisas », devemos dar ênfase, no nosso tema, à relação entre as palavras e os corpos vivos, e não à relação com o corpo enquanto mortificado pelo significante.

Este tema, « As palavras e os corpos », pode ser abordado de inúmeras maneiras, e dificilmente podemos afastar-nos da clínica ou dos discursos contemporâneos sobre o corpo. Objeto da ciência, que procura o pedaço ou a substância que lhe falta ou que ele tem a mais, por exemplo nas depressões ou na impotência; objeto de culto, de cuidados estéticos, tratado como imagem, como pedaço nos transplantes de órgãos; como objeto a ser reproduzido, e mesmo clonado, o corpo faz questão, cotidianamente. Na nossa clínica também, seja porque é o lugar privilegiado do sintoma histérico; seja porque incomoda o sujeito obsessivo, que preferiria, muitas vezes, não ter que se haver com o seu corpo; seja ainda porque é invadido, de diferentes maneiras, pelo gozo, nas psicoses, o corpo faz questão.

No Seminário preparatório ao IX Encontro Brasileiro, trabalhamos, em Belo Horizonte, sobre a questão do corpo nas estruturas clínicas, a partir de alguns casos clínicos escolhidos. Vou retomar aqui, mais particularmente, a questão do corpo na paranóia, a partir de um comentário inspirado pela apresentação de um caso de paranóia por um colega.

Vejamos inicialmente, em algumas linhas, os detalhes, no caso deste paciente, que chamaram nossa atenção para a questão do corpo, frequentemente colocada em segundo plano na paranóia, e que nos permitiram pensá-la à luz de algumas referências de Lacan sobre o corpo e sobre a paranóia, a partir dos comentários de Freud sobre o caso Schreber.

O paciente em questão, cuja psicose se desencadeou há mais de 10 anos, apresenta alucinações auditivas e uma profusão de pensamentos inevitáveis ligando sexo e religião, com idéias de culpa que o levam a fustigar-se fisicamente, se auto-espancando de maneira cruel. Além disso ele é invadido por um gozo sexual que só consegue controlar introduzindo objetos no ânus, produzindo assim uma localização do gozo que o alivia. Uma lembrança da infância fora resgatada na adolescência: ele arrancara o pintinho de uma imagem de Jesus Cristo, o que relaciona com suas práticas masturbatórias, sendo tranquilizado pela idéia de que Jesus Cristo não fazia tais coisas.

Se o corpo é do Outro, se constitui pela incorporação do simbólico como tal (cf. Seminário XVII, 21.01.70), podemos pensar que, na paranóia, na ausência do operador fálico, o gozo não é localizado nas zonas erógenas, nos objetos pequeno a, e ele invade o corpo do sujeito, o que Freud havia qualificado de retorno da libido sobre o sujeito. Enquanto na esquizofrenia o corpo é fragmentado e o gozo se localiza em um órgão (cf. a paciente da qual Freud fala no capítulo VII de « O inconsciente ») ou em uma parte específica do corpo, temos na paranóia uma invasão difusa do corpo como um todo pelo gozo.

Freud fala, a propósito da paranóia, de investimento da libido no delírio, o que corresponde à localização, como diz Lacan, do gozo no lugar do Outro. Mas se o corpo faz o leito do Outro, o corpo é invadido, segundo os casos, por este gozo persecutório, que o delírio nem sempre chega a dominar. É o caso do nosso paciente, que espanca o próprio corpo na tentativa de mortificar este gozo que não é mortificado pelo significante.

Na ausência da conjunção do sujeito com o objeto na fantasia (S/<>a), o que há é o sujeito do gozo = a = A, e portanto, as tentativas dramáticas do sujeito de localizar este gozo em um objeto possível de separar do próprio corpo, para que ele não seja ele mesmo este objeto de gozo do Outro. No caso de Schreber, Lacan falará de sua tentativa de juntar seu ser pelo ato de evacuar, e portanto pela produção do objeto anal, assim como para nosso paciente poderíamos dizer que, localizando o gozo com as penetrações anais, ele encontra um meio de pacificar seu ser.

O testemunho desta localização do gozo no lugar do Outro, sem que o objeto realize esta função, nos é dado por vários exemplos clínicos, onde o corpo faz questão na paranóia. Nosso paciente arranca o pintinho do menino Jesus, a exemplo do pequeno Roberto de Rosine Lefort, que quer extrair o objeto de seu corpo tentando cortar o próprio pênis, assim como o fazem outros sujeitos paranóicos: um se corta realmente o pênis, realizando a castração impossível de simbolizar, outro se corta um dedo, etc.

Ou ainda, o sujeito paranóico pode, na ausência de sua divisão pelo significante, se desdobrar especularmente e mesmo falar com o seu duplo. É o que o pequeno Roberto tampouco deixa de nos demonstrar: quando vê sua imagem refletida na vidraça ele quer quebrá-la, na tentativa de atingir seu pequeno outro especular. É o que nos explica também a tendência, não rara entre os sujeitos paranóicos, de quebrar vidraças e espelhos, na medida em que eles lhes mostram o duplo do seu eu, sem a mediação do Outro simbólico. Em outros casos, o paciente ataca seu eu ideal localizado em um pequeno outro, como é o caso de Aimée que ataca a atriz de teatro.

Finalmente, um paciente, entrevistado em uma apresentação de pacientes, nos fala do seu sentimento de perplexidade quando vê seu eu se desdobrar, sair dele mesmo e fazer coisas que ele não reconhece como sua intenção, numa espécie de automatismo que se manifesta a nível do corpo.

Vemos então que a identificação do gozo no lugar do Outro põe em destaque o corpo na paranóia, e as passagens ao ato, o delírio e os fenômenos alucinatórios, assim como os fenômenos de desdobramento imaginário, talvez não sejam as únicas formas de se haver com o gozo na paranóia.