World Association of Psychoalanysis

 

De que você tem fome?

Maria do Rosário do Rêgo Barros

 

De que você tem fome?, intervenção que mudou a posição do sujeito na vida e na análise.

Essa intervenção surpreendeu tanto a mim como a Daniel (analisante que iniciou sua análise aos seis anos). E sua mudança de posição, que só a posteriori pude avaliar, me deu a dimensão do real como impossível em jogo em determinadas mutações da transferência analítica.

Trago a sequência clínica que permitiu esta intervenção e suas consequências para colocar em discussão, mais uma vez, o efeito do ato analítico na psicanálise com crianças.

Mas antes gostaria de situar alguns elementos da história de Daniel, e de como ele foi trazido para ser atendido, pois foge ao que estamos habituados a encontrar na nossa prática de consultório. O pedido de atendimento foi endereçado não pelos pais, mas pelos educadores que se ocupavam dele em uma instituição para crianças problema, nos arredores de Paris. Daniel foi encaminhado a esta instituição por ter sido considerado pela escola inapto para a alfabetização.

Os educadores que se encarregaram de Daniel pareceram de imediato se inquietar muito com ele: calado, triste, ausente, desinteressado das atividades pedagógicas. Não brincava, e, sobretudo, os angustiava muito, porque se balançava a maior parte do tempo, o que os excluía e os fazia se sentirem completamente impotentes frente a ele.

Daniel foi retirado da família com a idade de oito meses por decisão do Juíz de Menores, que considerou seus pais incapazes de assumirem o filho. Logo depois de sua retirada da família sua mãe morre e seu pai desaparece. Quando ele fez dois anos e nove meses, foi tomada a decisão de entregá-lo para ser criado por uma nourrice, palavra que na tradução literal do francês quer dizer nutridora, mãe que amamenta um filho que não é seu. Poderíamos dizer mãe substituta. Na França, essas mulheres são pagas pelo governo para tomarem conta de crianças abandonadas ou retiradas da família.

A nourrice a quem foi entregue Daniel fala com grande emoção do seu primeiro encontro com ele. Diz que logo se tomou de amores por esse pequeno infeliz, abandonado, desprotegido, subalimentado, que precisa ser mimado, acariciado, e a quem não se deve mais frustrar. Ela acrescenta que ele é fortemente ligado a ela de quem não pode se separar nunca, pois entra em angústia, em pânico, chorando, perdido, desesperado. Esses significantes colhidos da fala da nourrice e presentes nos diversos relatórios escritos sobre Daniel, que circulavam na instituição, tinham um grande peso, na forma como ele se apresentava e como era acolhido. No entanto, desde seus primeiros encontros com o analista, ele indica, com os recursos que tinha, a forma como se apropriou e interpretou esses significantes. Colocava sempre em cena, como centro dos acontecimentos, uma mãe e um bebê. Nos desenhos o bebê não tem boca; isto é o que ele diz, mas o que está representado no desenho é uma boca riscada, anulada, ou preenchida. E nas cenas que organiza repetidamente ao longo de várias sessões, o bebê chora, a mãe consola, mas há sempre um trem que passa e carrega ora o bebê, ora a mamadeira do bebê. O trem vence, destrói obstáculos e a mamadeira é devolvida ao bebê, mas aí a mãe não está mais presente. A mamadeira é colocada na boca do bebê, debaixo das cobertas, ao mesmo tempo em que é dito ao bebê: não enche o saco. Frase que, quando sublinhada por mim, é negada por ele, que diz: não se deve dizer isto a um bebê. Em seguida a esta cena, uma vaca esbarra no trem e cai morta. Na cena em que o trem carrega a mamadeira, o pai entra como condutor do trem.

O desenrolar insistente destas cenas conta a história da separação traumática da mãe.

Freud diz no caso Hans: o que ficou assim incompreendido volta sempre, tal uma alma penada, até que seja encontrada solução e saída. E Lacan define o real como sendo o que volta sempre ao mesmo lugar. O significante desliza, se repete sempre diferente dele mesmo, e quando insiste aponta para o real, que fora da cadeia é a causa de sua insistência. A oferta da análise, que o colocava em uma posição diferente daquela que tinha na instituição, lhe permitiu atualizar as construções que fazia em silêncio. Eu me pergunto se o caminho que elas tomaram na transferência se deveu ao fato do analista poder ter sido o suporte do que restava opaco em suas construções.

Assim, num segundo momento de sua análise, ele me dirige insistentemente a demanda de que lhe dê comida, repetindo sempre: “o bêbê tem fome”. Eu devo então fazer de conta que lhe dou comida. Ele faz de conta que come com avidez, mas logo em seguida recomeça a choramingar e interrompe a cena para ir se colocar de joelhos numa cadeira e se balançar. Com isso me exclui e me deixa sem ação. Esta seqüência se repete durante algumas sessões, até que intervenho, ritmando seu balanço com minha fala que escande: “a mamãe que vai, a mamãe que vem”.

A partir daí, ele introduz uma nova cena em suas sessões, me pedindo para sair da sala enquanto ele, o bebê, fica chorando me chamando. Depois é ele que deve sair da sala e eu ficar chorando a chamá-lo. Mas agora, quando interrompe esta cena para se balançar, me ordena: “conta!”. “O quê?”, pergunto eu, e ele responde: “a história da mamãe que vai e da mamãe que vem”. Eu introduzo aí elementos de sua história: a separação da mãe, a chegada da “nourrice”, a mãe que ele perdeu, que morreu, e a mãe que recebeu.

Ao me introduzir em seus balanceios, eu faço deles um sintoma analítico, no qual há um saber suposto que se realiza como verdade. No lugar que era puro gozo auto-erótico, pelo qual ele tentava recuperar o gozo imaginado perdido com a perda da mãe, eu introduzo a dimensão simbólica do Fort-Da, da presença-ausência da mãe, de sua presença na ausência e de sua ausência na presença. A explicitação do Outro nesse gozo permite que o sujeito recoloque sua demanda e a depure no que a sustenta, ou seja, a demanda de amor, e não de um objeto específico.

Esta demanda, ao se repetir, vai inscrevendo o vazio do objeto pela constatação de que nenhum objeto de satisfação lhe é adequado. Demanda que nesse nível passou a ser demanda de nada. Se a esta demanda deve corresponder um dom, é dom de nada. É por isso que Lacan coloca entre os objetos a, o nada, que funciona tanto na demanda de amor como no desejo. Foi preciso todo este tempo, durante o qual servi de suporte para a sua demanda, e em que ele percorreu esses ciclos de comportamentos repetidos, para que fôsse possível a emergência do que funcionou para ele como ato analítico, quando certo dia, como resposta à sua queixa, eu perguntei: “Do que você tem fome?”.

É claro que esta pergunta só se evidenciou como ato a posteriori, pelo efeito que provocou de mudança na posição do sujeito. Lacan diz: o ato é um dizer que muda o sujeito.

À minha questão, ele responde eu não sei, e de repente pára surpreso. Deixa, então, a cadeira de bebê de onde pedia comida e à qual nunca mais retornou, e começa a procurar alguma coisa, sem saber o quê. Encontra um livro e um marcador de livros, e me pergunta se este marcador era um foguete. Em seguida me pede para desenhar um avião para ele, dizendo que ele mesmo não saberia fazê-lo. Eu lhe digo que podemos tentar fazer juntos, e o fazemos. Ele brinca então com ele, o faz voar e me pede para levá-lo consigo.

A partir desse dia ele muda de tema, de postura, e introduz de forma nova o pai em suas brincadeiras. Interessa-se por escrever, decifrar o que está escrito e me pede para escrever o seu nome, o da nourrice e o meu, e marca a diferença entre eles.

Permite-se ter segredos. Diz à nourrice que já não é mais um bebê, mas que ainda é um menino e não um homem, e que tem uma namorada e não dirá a ela quem é.

Em suas brincadeiras o pai entra julgando, colocando na prisão, como também salvando da prisão e das águas do mar (em francês há uma homofonia entre mar e mãe). Ele começa também a falar e a colocar em cena traços do pai adotivo, cujo alcoolismo era motivo de queixa para a nourrice. E que, curiosamente, eram os mesmos traços do pai de origem, que foram usados como jutificativa para retirá-lo de sua família.

Tentando hoje pensar o efeito da minha intervenção, o que posso dizer é que com ela foi sublinhado, marcado e deixado em aberto, como enigmático, o vazio do objeto que a demanda vinha circunscrevendo ao mesmo tempo em que tentando preencher. Reabriu-se assim a dimensão do desejo em sua forma de incógnita, pela suspensão do saber do Outro, que sentenciava você é aquele que tem fome, ao qual Daniel estava submetido. Foi aberta uma falha na suposição de saber, que sustentava a transferência e o desejo do analista aí operou, suspendendo aquilo que do saber do Outro fixava o sujeito ao objeto da sua demanda primordial.

Retornando ao trabalho feito por Daniel a partir desta minha intervenção, o que vejo nas brincadeiras em que ele introduz o pai, é a exigência de lidar com sua inconsistência.

Pergunto-me se a transmutação que esta intervenção operou na transferência permitiu inscrever um ponto de falta, que exigiu deste sujeito se colocar a questão do pai, não como provocador de uma falta para a qual ele se oferece como tampão ideal, mas como referência a partir da qual ele pode situar sua própria falta.

As falhas do pai na realidade passam a não servir mais para recobrir a falha estrutural do Outro, que se reabre quando, como consequência da intervenção, o objeto fálico do desejo perde a dimensão de complemeno ideal de sua falta-a-ser, da mesma forma que o pai se libera da exigência de responder pela falta-a-ter da mulher. Só assim, para Daniel, o significante paterno pode entrar como regulador na sua relação com a mãe, permitindo-lhe fazer um trabalho de luto pela mãe morta logo depois que se separou dela, e permitindo também que possa dizer não à sua mãe substituta.

A minha pergunta, se teve valor de ato, não estava sustentada pelo desejo de saber. Muito pelo contrário, ela emerge em ruptura com ele, no momento em que em minha própria análise eu experimentava o limite do recurso aos acontecimentos da história para justificar minha posição subjetiva frente às dificuldades do mundo.

Se volto mais uma vez à análise dessa criança é porque ela traz a marca de uma mutação transferencial em minha própria análise, que me permitiu operar na análise com crianças levando em conta o real como impossível, com o qual tenta lidar a própria construção edipiana, e a partir do qual ela encontra seu ponto de impasse, ou como dizia Freud, de impossibilidade interna, pelo qual ela tem chance de se dissolver.