World Association of Psychoalanysis

 

Comunicar o enigma?

Helenice S. de Castro

 

“Meu problema é falta de comunicação!” É com essa frase que W inicia todas as suas sessões e também é a partir dela que busca justificar tudo o que lhe ocorre.

Partindo, então, desse ponto, que considero central, e do estatuto a ser dado a esse “problema de falta de comunicação”, proponho discutir esse caso nos termos que se seguem.

W iniciou um primeiro tratamento, em 1995, no CERSAM - Centro de Referencia em Saúde Mental, um serviço municipal destinado a atender urgências psiquiátricas e casos graves, num modelo não hospitalar. Apos duas longas interrupções, ele retorna a esse serviço em junho deste ano, quando é atendido pelo medico de plantão. W diz nesse retorno, que seu “problema continua sendo a falta de comunicação”. Queixa-se de não estar conseguindo conversar com seus colegas de trabalho e nem com seus familiares. Acredita inclusive que, na firma onde está empregado como “ajudante de produção”, tem sido vitima de criticas devido a essa sua dificuldade em se comunicar. Pede para retomar o tratamento, e é nessa terceira e atual chegada de W ao CERSAM que passo a atendê-lo, juntamente com uma psiquiatra da mesma instituição.

No dia 17 de junho, recebo W pela primeira vez, quando escuto dele o seguinte relato: “Tenho dificuldade de conversar, mas não sei dizer o que esta acontecendo; será que é isso mesmo? Esta vendo como as coisas estão? A única coisa que sei dizer é que está errado. Tem alguma coisa errada, mas não sei dizer o que é”. A sua fala nesse momento é bem fragmentada, marcada pela angustia na qual o paciente parece se encontrar.

Conta que é calado desde a infância e que, em 1995, quando trabalhava numa empresa, “viu na direção da porta, dois clarões, um mais forte, outro mais fraco e depois disso a dificuldade de conversar só piorou”. Levanta, então, razoes que poderiam justificar a existência de seus problemas: “Acho que foi mudança de idade atrasada, mudança de criança para adolescente e depois para adulto”. Uma segunda justificativa, mencionada por W, seria o fato de ter estudado em “escolas péssimas”. Ele diz: “não tenho educação”. Chega a falar que não reconhece ter estudado, por terem sido (tais estudos) muito mal feitos: “eu colava muito!”.

Traz ainda, nessa primeira entrevista, a questão de não conseguir entender o que os outros dizem: “eu não entendo o significado; duas palavras eu consigo entender, depois não entendo o conjunto”. Demonstra muita ansiedade e grande sofrimento diante dessa situação.

Passo, desde esse contato inicial, a me interessar por essa dificuldade de W em circular pela linguagem, colocando, inclusive, os diagnósticos, que ate então vinham sendo de neurose obsessiva ou Transtornos Obsessivos Compulsivos (TOC), em suspenso.

Na sessão seguinte (segundo atendimento) ele chega contando ter pedido demissão do trabalho (estava nesse serviço ha dois anos): “é o problema da comunicação: não sei conjugar teoria e pratica, pois se leio as regras, atraso na produção e não consigo guardar as regras na cabeça”. Sobre a firma, onde trabalhava, diz que via pelo olhar das pessoas que seu serviço não satisfazia: “eles não falavam com palavras, mas falavam com o olhar”, e prossegue: “eu só conquisto inimizades, sinto que me isolam, não sei se me isolam ou se eu é que me isolo; acho que exijo muito de mim, mas por que?”.

No atendimento psiquiátrico repete o relato das visões dos clarões como o ponto de partida de suas dificuldades: “tenho dificuldade para me aproximar das pessoas, eu não brinco, não caçôo, não falo. E esse silêncio, não sei se isto me prejudica ou se me ajuda e não sei como pode me ajudar. Acho que é timidez, embora não saiba o que isto significa! Eu não saio do lugar! Nada melhora. Tudo é ‘não sei’. Como pode isto? Trinta anos e não sei. As vezes acho que nem sou normal, de tanto não sei. De que valeram meus estudos?”.

Retomando alguns dados do inicio do tratamento de W no CERSAM, em agosto de 1995, quando veio encaminhado pelo serviço de urgência de um hospital psiquiátrico, encontramos algumas anotações interessantes que nos ajudam a entender o porque de se apostar, naquele momento, num diagnostico de neurose. Naquela época, todas essas duvidas, que o paciente passou a apresentar, são descritas como se manifestando através de pensamentos reiterativos. Essas dúvidas, associadas à não observação de fenômenos elementares inequívocos, como alucinações verbais, e uma constante culpa sentida por W em relação a tudo que não vai bem consigo próprio e com seus familiares, fazem, portanto, com que o diagnostico de neurose obsessiva vá se consolidando.

Num segundo momento, apos uma interrupção de 10 meses, W retorna ao CERSAM, continuando seu tratamento com outro psiquiatra. Este profissional, partindo do diagnostico de Neurose Obsessiva, proposto pelo primeiro medico, conclui, fiel ao DSM-IV, por um diagnostico de Transtornos Obsessivos Compulsivos (TOC).

Numa descrição fenomenológica, W se enquadraria, sem duvida, num quadro de TOC, diagnostico muito em voga hoje nos meios psiquiátricos. Vários autores, partidários de tal referencia nosológica (DSM), ressaltam a “duvida patológica e a culpa” como fenômenos constantes nas descrições clinicas dos Transtornos Obsessivos Compulsivos (1). Nos casos identificados como TOC, haveria uma ruptura entre ação e realização, traduzida em duvidas, a ponto desse quadro, segundo esses mesmos autores, já ter sido denominado, pelos franceses no século XIX, como a ‘loucura da duvida’ (‘folie de doute’) (2).

Mas se a duvida se encontra presente na descrição de TOC nas referencias do DSM-IV, também a encontraremos como sintoma marcante na construção que Freud faz da neurose obsessiva. No caso do Homem dos Ratos, Freud relata um momento onde seu paciente se vê presa de uma “obsessão por compreensão” (3). Porem, nesse caso de Freud, a culpa que o paciente ira manifestar será fruto da interdição paterna, paralisando seus poderes de decisão e submetendo-o a dominação da compulsão e da duvida.

Retornando ao relato do caso, venho questionar se essa dificuldade em se comunicar, da qual W tanto se queixa, estaria sustentada numa queixa a partir da castração, ou se poderíamos dizer que essas dificuldades ou duvidas eternas existiriam exatamente por não ter ocorrido, nesse caso, a interdição paterna.

W relata freqüentemente uma relação bem especial com as palavras, o que me faz suspeitar que, mais do que aprisionado numa “duvida obsessiva”, ele se encontraria sim suspenso num eterno enigma, diante da impossibilidade da relação do significante ao significado, articulação esta que só ocorrera fluentemente com a incidência do Nome-do-Pai no Outro da linguagem.

Ouvimos o que ele diz: “depois que saí do trabalho, as coisas estão piores; estou mais isolado, não saio de casa, não tenho contato com a sociedade. Eu falo sociedade, mas nem sei o que é sociedade”. Ou, numa outra ocasião: “converso com minha mãe sobre o que escuto na T.V. Eu fico assistindo o jornal mas não entendo nada; por exemplo, falo com ela ‘democracia’, mas não sei o que isso significa”.

Segundo o paciente, diante dessa dificuldade em encontrar o significado das palavras, passa a consultar o dicionário várias vezes ao dia. Ele diz: “Fico o dia todo olhando o dicionário, mas não adianta, não entendo nada do que está ali; leio o sentido, mas (o sentido) fica só no papel!”.

Jacques-Alain Miller, em seu texto de abertura do “Conciliábulo de Angers” (4), dirá que o enigma coloca em questão exatamente a relação do significante ao significado, produzindo uma ruptura entre os dois. Miller definira, então, o enigma como sendo o reconhecimento de alguma coisa como significante, ou seja, o reconhecimento de alguma coisa que quer dizer algo (S - (...) Que), porem “o que”, o que isto quer dizer, não pode ser enunciado, fica velado, torna-se uma falta. O enigma forçaria uma clivagem do espaço semântico e também sua temporalização. Num primeiro tempo, reconhecemos que ha ai um significante, “que”, que quer dizer alguma coisa. O segundo momento é para enunciar “o que”, isto é, o que quer dizer, e quando não é possível, temos o enigma. Diante, então, da não relação entre o significante e o significado, encontraremos somente certeza e angustia, já que não haverá a possibilidade da significação como desenvolvimento de miragens. E é tudo isso que faz com que o enigma esteja do lado da psicose, pois, no não psicótico, a relação entre significante e significado é fluida.

W sabe que o significante quer dizer algo, mas nunca consegue saber “o que”. Ele pronuncia as palavras como “timidez, democracia, sociedade” e o que encontra no lugar da significação é um vazio ou “um silêncio”, como ele mesmo diz. Portanto, se na neurose, como nos lembra Miller, é com a surpresa que recuperamos alguma coisa do afastamento entre o significante e o significado, no caso de W a suspensão no enigma impede que uma significação apareça para encobrir algo do real.

Essa dificuldade em se comunicar faz com que W não tenha contato com ninguém em seu bairro e que não tenha amigos. Recentemente, ao ver um grupo de pessoas conversando num bar em frente a sua casa, não se aproximou, por acreditar que estariam falando dele, “eu ouvia risos em minha direção”. E se, num primeiro momento, fala do olhar dos outros como sendo o impedimento para que permaneça no emprego, dirá adiante, em uma de suas sessões, que saiu do trabalho por não suportar mais que falassem dele: “Em qualquer lugar, se tem pessoas conversando, sinto que é sobre mim. Pode ate não ser, mas acho que é. E sempre falando mal: é ‘viado’, bobo, pastel! É como se tudo que já fiz, trabalho e convivência, não fosse nada, porque eu não estava ali. É como se eu só cumprisse ordens, como se tivesse alguém me guiando e dizendo o que devo fazer. Não tomo iniciativa e sempre acho que fiz errado. Como se não fosse eu que fiz!”.

Acha que sempre foi assim, que desde criança não sabe o que faz, “é como se eu não existisse!”.

Lembra-se que na infância brigava muito e conta que isso ocorria porque “nunca entendia o sentido das brincadeiras”. Na adolescência resolve parar de brigar, porem é aí que vem “o silêncio”, não sabendo mais como se aproximar das pessoas.

W diz que não sabe “interpretar as brincadeiras” que fazem com ele, acabando sempre por se sentir ofendido. Nesse momento fica “cheio de nervoso e ódio”, mas sabe que se tornar “agressivo poderá leva-lo a prisão”; acaba, então, “deixando para lá e se isolando cada vez mais”. Ele diz: “Sempre fui calado, dos 10 aos 18 anos, mas depois piorou e eu acho que não da para viver assim! Ate sai do trabalho. Ter carteira assinada era a única coisa que eu tinha de gente normal; agora nem isto. Quando entrei na empresa, eu avisei que não gostava de brincadeiras, mas não tem jeito, todo lugar que eu trabalho é assim (já teve outros dois empregos antes desse ultimo de onde se demitiu), a ‘piãozada’ começa a mexer comigo, chamam-me de tolo, bobo; ai eu acabo saindo, fico com medo de não agüentar e partir para a briga. Eles falam indiretamente; quando escuto, eu me isolo ainda mais. É engraçado: por que brincam comigo assim, se eu tenho escolaridade? não foi boa a escola que eu fiz, mas eu fiz, ou será que foi só no papel?”.

Sabemos que na neurose o sintoma é a “gasolina do ser vivente” - como nos dizia Carlo Vigano em uma de suas recentes conferencias aqui em B.H. (5) - já que é com o sintoma que o neurótico tenta tratar a insuficiência do Outro, tomando desse Outro um significado do qual ele, sujeito, possa se localizar na vida. Na psicose, a maquina do sintoma não funciona, pois a função do Nome-do-Pai esta forcluida no lugar do Outro. Vigano ilustra essa impossibilidade de uma maneira bastante clara. Ele diz que, dentro do lugar do Outro, existe um motorzinho que promove o retorno da flecha no primeiro andar do grafo do desejo, retorno que produzira o sentido; porem, se não ha motor que impulsione a flecha, não haverá também produção de sentido. Mas como sem sentido não é possível viver, então o sujeito psicótico encontrara o sentido alienando-se completamente no lugar do Outro. A certeza de que o significado esta do lado do Outro tem como conseqüência, na psicose, que esse significado venha a partir do lugar do Outro, mas no real. É o que ocorre nos fenômenos elementares, principalmente nas alucinações verbais.

No caso de W, como observa o primeiro psiquiatra que o atendeu, não ha alucinações verbais inequívocas, mas sem duvida, para esse sujeito, os significantes do Outro sempre estão conspirando contra ele, constantemente zombando dele na produção de um significado que acaba, inevitavelmente, ofendendo-o.

Concluo este texto reproduzindo o relato que W faz, em agosto de 1995, em sua primeira procura pelo serviço, acreditando que tal relato também contribuir para pensarmos em um diagnostico tanto quanto no momento de desencadeamento de sua presumível psicose.

Em agosto de 1995, quando estava em um bar, acompanhado de amigos, W “sentiu de repente algo estranho, como se seu corpo sofresse uma mudança, a cabeça ficasse vazia e a parte de baixo também mudasse”. A partir dai a idéia de que estaria “virando para o outro sexo”, “virando mulher”, passou “a insistir em seu pensamento”. Ele diz que um mês antes, em julho, começou a se preocupar no trabalho com “questões de produção, devido a cobranças corriqueiras do encarregado”. Esse estado de maior preocupação acompanhou-se de outro, quando passou a manter um maior contato com colegas do serviço através de brincadeiras e conversas mais freqüentes. Num certo dia, um dos colegas perguntou-lhe: “você esta se sentindo em casa?” desse momento em diante começou a sentir “um clima estranho no trabalho”, achando que todos olhavam para ele.W descreve essa estranheza da seguinte maneira: “Em alguns momentos, o clima estava mais claro e o sol mais forte, em outros, mais escuro”. Como vimos anteriormente, não se tratava de uma metáfora. No mês seguinte, num final de semana, sai com colegas de trabalho a noite, bebe um pouco. Volta para casa, para depois sair novamente, em direção a uma discoteca. Ao paquerar - “fazer o que todo homem faz” - percebe que não sentia nada pela moca com quem estava dançando. Nesse entremeio, entre o bar e a discoteca, percebeu-se paralisado da cintura para baixo e diz que, desde então, ficou sem “erupção do pênis”. A partir dai começou a ter “o pensamento bobo de achar que estaria virando mulher”.

No transcorrer de seu tratamento, W praticamente não falou mais dos episódios narrados nessa época, permanecendo, desse relato, apenas a descrição dos clarões. A preocupação de W de estar “virando para o outro sexo” vai deixando de ocupar o primeiro plano de sua fala, sendo substituída, gradativamente, por uma busca continua de “encontrar o sentido certo das coisas”. Tal “sentido certo das coisas” será buscado no plano do “significado certo de cada palavra”, como nessa indagação de W naquele ano de 95: “Mulher, por exemplo, tem corpo de mulher, então o significado de mulher é aquilo?”.

 


 

(1) Ver: Torres, Albina Rodrigues. « Ansiedade e Transtornos Obsessivo-Compulsivo ». In: « Ansiedade e transtornos de Ansiedade ». Editores: Graeff e Hetem.

(2) Idem, ibidem.

(3) Freud, Sigmund. « Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva(1909) ». In: « Edicao Standard das Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud ». Volume X. Rio de Janeiro, Imago, 1976.

(4) Miller, Jacques-Alain. « De la surprise a l’enigme ». In: « Le Conciliabule d’Angers. Effets de surprise dans les psychoses ». Le Paon, Collection dirigee par Jacques Alain-Miller, Agalma Editeur, Diffusion Le Seuil, p. 9-22.