World Association of Psychoalanysis

 

Corpo a corpo com o real

Angelina Harari

 

A partir do enfoque de um cartel ‘questões postas pela clínica
psicanalítica’ abordaremos o tema proposto, corpo a corpo com o real, em
duas vertentes:

1 - O real no corpo da clínica psicanalítica
2 - O real em jogo na experiência institucional – EBP

1 - O corpo da clínica é uma expressão provocativa e suscita
esclarecimento imediato. O pensamento viciado remete-nos sempre que
falamos em corpo ao corpo biológico: A clínica tem corpo ? Qual é o
corpo da clínica ?

Ao sintoma corresponde o viés do corpo na clínica psicanalítica. A
estrutura do sintoma responde a uma dimensão da linguagem que dá conta
da passagem necessária do organismo para o corpo. Impõe-se a idéia de um
corpo homogêneo com o símbolo, resultante do incorporar do órgão da
linguagem pelo organismo vivo (1).

Lacan define a estrutura como o real que se presentifica na linguagem
(2). De que estrutura se trata ? Muda a perspectiva estrutural ?

O sintoma como estrutura implica um corpo. O real presentificando-se na
linguagem exclui a possibilidade de subordinação à mesma. Trata-se de
uma estrutura sustentada na autonomia dos registros simbólico,
imaginário e real. Lacan avança na noção de sintoma que supre a ausência
da relação sexual, são múltiplas maneiras de cada um tratar essa
ausência (3).

Muda a perspectiva estrutural, a clínica diferencial não é pautada mais
apenas em mecanismos. Contudo estes seguem sendo uma referência.

Ao corpo homogêneo com o símbolo corresponde outra descoberta freudiana
de peso: a natureza expandida da sexualidade humana que ao se opor à
satisfação plena dá lugar à diversidade.

2 - Com o retorno do múltiplo, recentemente vimos um real em jogo na
experiência institucional: prevalecimento do múltiplo em relação ao Um.
Como entender esse retorno em uma Escola tão nova ? Tratar-se-ia de um
problema desde os alicerces mesmos de sua constituição ? O múltiplo
operaria contra ou a favor da consistência de uma comunidade
psicanalítica ?

Pensa-se que a primeira Escola fundada pela AMP teria sanado os
problemas decorrentes da lógica de grupo. A passagem do grupo à Escola
deveria ter ficado para trás, na época da Iniciativa-Escola. Houve fusão
onde havia mais de um grupo, transvasamento em casos de grupo único,
sempre após sua dissolução. Processos simultâneos que concorriam a um
lugar comum: a criação de uma Escola de Lacan.

Há uma dialética do múltiplo das Seções da EBP e do Uno da própria EBP,
se o múltiplo retorna fortalecido é na dialética que reside o
problema. De que Uno se trata ?

A equivalência dos títulos outorgados pelas diferentes Escolas traduz a
unicidade da AMP. Não se trata da prevalência de poder, uma mais que as
outras, ou ainda AMP mais que as Escolas. A unicidade dos títulos
respeita a multiplicação dos A.E. O Uno da Escola Única faz dialética
com o múltiplo, seja ele nas diferentes Escolas ou diferentes Seções de
uma Escola.

 



1 - Zénoni (A.), "Le corps de l’être parlant", Bruxelles, éditions
Universitaires, 1991, p. 76.
2 - Lacan (J.), « L’étourdit », "Scilicet", n° 1, Paris, Seuil, 1973.
3 - Miller (J.-A.), « L’appareil à psychanalyser », "Quarto", n° 64,
Paris, Agalma-Seuil, p. 11.