World Association of Psychoalanysis

 

Ritual da Palavra na Sessão Analítica

Angelina Harari

 

Ao enfocar o tema "Sessão Analítica" evocamos automaticamente os "Artigos Técnicos" de Freud. E envolvidos, temos a nítida impressão de estarmos falando da técnica psicanalítica. São inúmeros os trabalhos de Freud que tratam do assunto ultrapassando de longe os artigos agrupados sob tal rubrica. Lacan, muito cedo em seu ensino, deu-lhe a devida importância: "O que motiva e justifica esta forma é que cabe alertar, algum prático inexperiente que gostaria de se lançar na análise, e que é preciso lhe evitar um certo número de confusões quanto à prática do método, quanto à sua essência, também" (1). O termo "técnica" não justifica a pretensa unidade do agrupamento, visto que "Em certo sentido Freud nunca cessou de falar da técnica" (2). O apreender do progresso da elaboração prática, também Lacan sempre o enfocou.

No contexto da sessão analítica, pode ser incluído, dentro da problemática das regras práticas a observar, caso do prático inexperiente, porque se presentificou desde o início do tratamento como básico para formalizar a regra fundamental que os encontros com o analista devem ser assegurados.

Gostaríamos de incluir no rol dos práticos inexperientes, aqueles que buscam a análise pela primeira vez: a regra fundamental é a regra técnica para quem demanda a análise.

A crítica da técnica analítica não poderá ser entendida, se a extrairmos do contexto. Para Lacan não se trata de crítica à técnica freudiana, mas sim "à maneira pela qual foram acolhidas, adotadas, manejadas, as noções que Freud introduziu no período imediatamente ulterior ao dos Escritos Técnicos, a saber, as três instâncias" (3). Ele, por sua vez, apontava o frescor dos textos e sobretudo o desembaraço com o trato da questão.

Apreender o progresso do elaborar da prática psicanalítica, retornando a Freud, marcou o ensino de Lacan.

Nos artigos técnicos freudianos propriamente ditos são estabelecidas as bases do início do tratamento. A sessão analítica emerge do consentimento de marcar e comparecer a novo encontro com o analista; encontro que será ou não sessão analítica; aproveitamo-nos aqui da conotação de "imprevisto" que o termo "encontro" comporta. Um após outro, os encontros se sucedem e somente a posteriori poderemos verificar escanções na fala analisante produzidas através dos cortes em cada sessão.

Entre o comparecimento e o corte preservamos o lugar do imprevisto (4); lembrando-nos da transferência inicial propomos como recorte, neste presente trabalho, o enfoque do ritual da palavra na sessão analítica. Ao estabelecer as bases no início do tratamento, cabe ao praticante fazer funcionar algumas coordenadas ou regras técnicas. "A técnica só vale, só pode valer na medida em que compreendemos onde está a questão fundamental para o analista que a adota", diz Lacan (5).

O texto lacaniano, comparável ao dos escritos técnicos de Freud, trata também de regras práticas, sendo de onde procede a leitura dos artigos técnicos, o seminário. E também a "Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder", texto contemporâneo do Seminário 5, "As Formações do Inconsciente".

A grande regra técnica a observar nesses textos resulta dos manejos do analista ao articular as bases do início juntamente com as do final do tratamento. A questão fundamental do analista que adota tal técnica reside, em resumo, em sua política quanto ao final de análise.

Naturalmente a contribuição lacaniana aos progressos elaborados na prática analítica, como mencionamos anteriormente, não cessou, prosseguindo em textos do final de seu ensino: "L’étourdit", "Le Sinthome", etc.

Tanto Freud quanto Lacan ao falarem de regras práticas insistiram na idéia da liberdade do praticante, nos cuidados a observar para não transformá-las num modelo a seguir.

A regra analítica e outras, segundo Lacan, "... numa comunicação inicial, revestem-se da forma de instruções, as quais, por menos que o analista as comente, podemos considerar que, até nas inflexões de seu enunciado, veicularão a doutrina com as quais o analista se constitui, no ponto de conseqüência que ela atingiu para ele" (6).

Nas diretrizes iniciais, o analista se encontra menos livre na sua estratégia (transferência) e política (final de análise).

No contexto das regras práticas cabíveis para alertar o praticante inexperiente, pretendemos inscrever o ritual da palavra na sessão analítica. Ao longo das entrevistas preliminares, no período de aplicação das regras, na medida em que a associação livre é colocada em prática, em que o sujeito suposto saber se instala como função, surgem na fala analisante frases estereotipadas que permanecem como rituais, modos de colocar em marcha a máquina da associação livre. Fazem parte integrante da fala do sujeito. Um necessita afirmar primeiro seu bem-estar para em seguida mergulhar no horror que constitui a relação com a mãe. Outro necessita aludir à sala de espera do consultório, outro ainda começa sempre afirmando a proximidade do ponto final dos encontros.

Cada sujeito encontra seu modus operandi dentro da associação livre. A fala veiculada através das frases estereotipadas compõem um como: "Não tenho nada a dizer", e em seguida faz jorrar infindável cadeia associativa.

 

Nas recomendações ao praticante novo, Freud adverte para o perigo da atenção deliberada, contrapondo-a à atenção flutuante (7). A escuta analítica pretende a atenção igualmente suspensa da fala analisante. Tal exercício, nas entrevistas preliminares, teria o objetivo de fazer vigorar a regra fundamental: dizer tudo, para que o imprevisto - as formações do inconsciente - se manifestem. Se houver intenção na escuta o associar livre não produzirá o imprevisto.

Sessão analítica e o acontecimento imprevisto, título do próximo Encontro Internacional, tendo o contraste de previsto e imprevisto, segundo J.A. Miller (8), a sessão como constante versus o imprevisto que aflora da associação livre. Do particular surge o ritual da palavra: dá um rosto a cada fala e possibilita as diversas emanações do inconsciente.

Cabe ao analista, assegurando a seqüência dos encontros, preservar o espaço do imprevisto, deixar que a palavra desenhe os contornos. O ritual dá o tom à marcha das associações.

 


  1. Lacan, Jacques. "Seminário 1, Os escritos técnicos...". Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. P. 16.
  2. Ibid. P. 17.
  3. Ibid. P. 24.
  4. Miller, Jacques-Alain. "Les us du laps". Curso inédito. Aula de 14 de dezembro de 1999.
  5. Lacan, Jacques. Loc. cit. P. 25.
  6. Lacan, Jacques. "A Direção do Tratamento...". Escritos. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. P. 59.
  7. Freud, Sigmund. "Recomendações aos Médicos que exercem a Psicanálise". Rio de Janeiro. Edição Standard Brasileira. 1969. P. 150.
  8. Miller, Jacques-Alain. Loc. cit.