World Association of Psychoalanysis

 

O Artista e a Obra – o "caso" James Joyce

Sergio Laia

 

"Expliquer l'art par l'inconscient me paraît des plus suspect, c'est ce
que font pourtant les analystes. Expliquer l'art par le symptôme me
paraît plus sérieux." (Jacques Lacan)


Questoes lacanianas

"À partir de quand est-on fou? Joyce était fou?" - indaga Lacan no
Seminario "Le sinthome". Uma questao mais geral sobre a causa e o
desencadeamento da loucura sustenta o investimento de Lacan nesse
escritor e em muito do bla-bla-bla que sua escritura deriva, bem como o
leva a se interrogar tambem, de um modo particular, sobre a loucura do
proprio Joyce.

Entretanto, o que mobiliza Lacan em sua investigacao do texto joyceano
nao sao, pelo menos exclusivamente, interesses etiologico-psiquiatricos.
Via Joyce, ha uma retomada que o proprio Lacan faz de sua producao
quando jovem: "moi, j'ai commencé par écrire Ecrits inspirés, c'est en
quoi je n'ai pas à trop m'étonner de me retrouver confronté à Joyce, et
c'est pour ça que j'ose poser la question - Joyce était-il fou? Par quoi
ses écrits lui ont-ils été inspirés?"

Aludir essa referencia de inspiracao comum a seus escritos e aqueles de
Joyce permite a Lacan visar nesse escritor nao propriamente uma
identificacao de uma loucura, ainda que nao desencadeada, tampouco uma
revelacao, se pudermos dizer assim, do inconsciente de Joyce. Lacan se
orienta por um exercicio da escrita no qual a loucura exerce uma funcao
inspiradora e a obra, como veremos mais adiante, se trama como um
sintoma que faz par com o artista que o cria e incide, sobre ele e para
alem dele, tambem entre seus leitores, como uma experiencia que escapa
ao registro do interpretavel.

Parece-me haver, entao, uma certa diferenca entre uma certa posicao de
Lacan em "Le sinthome" e a insistencia de alguns psicanalistas em
afirmarem de um modo peremptorio, apoiando-se inclusive nesse Seminario,
a existencia de uma psicose em Joyce. A meu ver, Lacan e prudente e,
mais ainda, elegante: a questao "Joyce était-il fou?", associa-se uma
outra, sobre a inspiracao dos escritos joyceanos.

Vale lembrar que, alguns meses antes da sexta sessao de "Le sinthome",
Lacan situou a psicose como "un essai de rigueur" e marcou uma outra
proximidade sua com a loucura afirmando: "en ce sens, je dirais que je
suis psychotique. Je suis psychotique pour la seule raison que j'ai
toujours essayé d'être rigoureux (1)."

Essas elaboracoes de Lacan em torno da loucura de Joyce nos dirigem rumo
a "clinica universal do delirio (2)". O "universal" que se encontra ai
em jogo complexifica e mesmo rompe com a nosografia psiquiatrica que
tende a segregar o delirio como exclusivo a determinados quadros
patologicos. Entretanto, tal universalidade do delirio nao referenda a
relativizacao psicologica da loucura que a concebe como uma experiencia
vivenciada por todos de um modo mais ou menos igual, tampouco se
confunde com o dito popular que proclama que, "de medico e louco, todo
mundo tem um pouco". Tal universalidade implica que todos deliram porque
"os homens falam e... ha linguagem para eles" e, na medida em que o
significante se articula apenas com um outro significante e nao como uma
coisa, ele "irrealiza o mundo", "a linguagem faz inexistir aquilo do que
ela fala" - nao e so o louco que fala do que nao existe (3).

Entretanto, a "clinica universal do delirio" não implica em uma
homogeneizacao da experiencia da loucura. Poderemos dizer, nao menos
ironicamente: ha loucos e loucos - a investigacao das diferencas
estruturais nao e abolida, uma vez que existem aqueles para quem, por
exemplo, o acesso a loucura nao comporta qualquer esforco, pois sequer
ha propriamente um acesso - e em queda livre que eles se precipitam na
loucura.

O que muda radicalmente e que, se o delirio e universal, o ponto de
partida da clinica deixa de ser, para os analistas, "a questao... 'o que
e um louco?'" - diante da insuportabilidade do real e da irrealizacao
promovida pela propria palavra, deveremos, se quisermos ser rigorosos,
nos nortear desde uma outra questao: "'como e que se pode nao ser
louco?' (4)." E uma questao assim que, "avant la lettre" ja reverberava
em: "à partir de quand est-on fou?"

Referencias biograficas e literarias

E com surpresa e mesmo um certo espanto que os meios literarios acolhem
a associacao entre Joyce e loucura.

Sabe-se, sem duvida, da marca - tambem ressaltada e comentada por Lacan
no Seminario 23 - que o desencadeamento da psicose de Lucia, filha de
Joyce, deixou tanto em sua vida quanto em sua obra. Joyce chegou
inclusive a se desdobrar para cuidar, ele mesmo, de sua filha e, entre
as varias e perturbadoras dificuldades que atravessaram sua vida, a
psicose dela foi a unica que o impediu por algum tempo de dar
continuidade ao trabalho que ele estava entao realizando ("Finnegans
Wake"). Por outro lado, esse ultimo livro de Joyce incorpora - mas
sempre transformando - uma serie de marcas relativas as situacoes
vividas durante as primeiras crises de Lucia.

Muitas vezes contra a vontade dele proprio, Joyce levou a filha a varios
medicos e relutava em concordar com os diagnosticos e mesmo com os
tratamentos que propunham para ela. Quando o agravamento progressivo e
intenso de Lucia o obrigou a acatar de vez sua internacao em clinicas
psiquiatricas, me parece que Joyce cedeu para proteger Lucia dela mesma
e nao porque concordasse integralmente com esse encaminhamento (5). Em
algumas ocasioes, Joyce chegou a acreditar e defender que Lucia tinha
poder de clarividencia que ele, inclusive, reconhecia tambem em si
proprio (6). Numa outra situacao, quando o tratamento de Lucia estava
sob a cargo de Jung, este tentou argumentar que havia "elementos
esquizoides" nos poemas que ela escrevia. Joyce, no entanto, via uma
proximidade entre os escritos da filha e o que ele fazia - tratava-se da
antecipacao de uma "nova literatura... nao compreendida, ainda (7)".

Por sua vez, Jung defendia que, embora fossem notaveis alguns dos
neologismos e aglutinacoes de palavras criados por Lucia, ela -
diferente do que acontecia com Joyce - o fazia aleatoriamente, sem
qualquer controle (8). Mais tarde, Jung explica a relutancia de Joyce em
aceitar a esquizofrenia da filha como uma dificuldade de ele se
confrontar com sua propria "psicose latente" - "seu estilo 'psicologico'
e sem duvida esquizofrenico", mas com "a diferenca de que o paciente
comum nao pode se abster de falar e de pensar desse modo enquanto Joyce
queria isso e, alem do mais, desenvolveu isso com todas as sua forcas
criativas, o que incidentalmente explica por que ele proprio nao foi
alem da borda (9)".

Algumas breves indicacoes que encontramos na exaustiva biografia que
Ellmann consagrou a Joyce poderiam referendar o diagnostico junguiano de
uma "psicose latente": faz-se uma rapida alusao a algumas alucinacoes
auditivas que teriam perturbado Joyce quando o estado de Lucia se
agravou, mas tambem somos informados de que ele havia ficado seis ou
sete noites sem conseguir dormir - um medico atestou seu estado como
nervosismo e o orientou a voltar a se dedicar a seu livro (10). Outras
referencias - bem mais discutiveis - seriam o que o proprio Ellmann
chama de "tendencia para o litigio" (que poderia evocar a querulancia
presente em alguns delirios de perseguicao (11)) e os curtos episodios
depressivos, vividos por Joyce sobretudo por ocasiao da ameacas de
censura e de nao publicacao da sua obra ou mesmo devido a ma acolhida
que "Working in progress" e, depois, o proprio "Finnegans Wake"
receberam da parte de amigos que antes exaltavam as mudanças e rupturas
que sua escritura imprimia na literatura.

A brevidade dessas indicacoes - contrastada com a busca de Ellmann pela
exatidao - nos permite suspeitar nao de sua veracidade, mas da precisao
e do rigor que elas poderiam conferir ao diagnostico de uma "psicose nao
desencadeada". O unico episodio cuja estranheza aponta mais nesta
direcao e aquele no qual, diante da resistencia insistente que "Working
in progress" despertava em Miss Weaver, que era uma especie de mecenas
para Joyce, este considera a possibilidade de que um outro escritor,
James Stephens, ficasse encarregado de finalizar o trabalho que
desemboca nesse rio de letras caudaloso que e "Finnegans Wake". As
razoes que justificam a escolha desse escritor que, a principio, Joyce
sequer conhecia pessoalmente e cujo trabalho nao tinha nada a ver com o
que ele fazia sao bastante inusitadas e nos fazem lembrar o quanto a
associacao com um duplo pode ter, para alguns casos de psicose, uma
funcao de estabilizacao: "ele e um poeta e nascido em Dublin", "JJ e S
(o irlandes coloquial para o whisky de "John Jameson and Son") seria uma
boa inscricao abaixo do titulo", "a combinacao do nome dele com o de meu
heroi em Um retrato...", e tambem uma coincidencia do dia e do mes nos
quais ambos escritores haviam nascido (12) ...

Vale ressaltar ainda o quanto tais indicacoes estao articuladas a
momentos nos quais a relacao ou, se quisermos, a parceria de Joyce com
sua obra se viu ameacada. Por outro lado, o que acabo de ressaltar
reforca, certamente, a tese lacaniana de que a obra de Joyce e um no:
ela amarra o que - em sua ausencia - terminaria por se desarticular de
um modo possivelmente inevitavel e bem proximo, por exemplo, do que
aconteceu com Lucia. No entanto, quando Lacan nos autoriza a pensar que
a loucura inspira a obra joyceana, isso nao que dizer necessariamente
que Joyce tenha, como avaliou Jung, uma "psicose latente" que não se
manifesta gracas a sua obra e a seu genio.

Entre ser vitima da loucura e controlar a loucura a ponto de poder criar
a partir dela ha, certamente, uma diferenca e e nessa diferenca que Jung
se apoia, para o descredito do proprio Joyce, inclusive. E no minimo
curioso que alguns analistas lacanianos facam "Le sinthome" vibrar no
mesmo diapasao da explicacao junguiana - a obra, enquanto suplencia a
foraclusao do Nome-do-Pai no registro do simbolico, se limitando a ser
um modo de impedir o desencadeamento da psicose ... Nao haveria, entao,
grandes diferencas entre o Lacan que nos anos 70 aborda Joyce e aquele
que, nos anos 50, retornava a Freud via Schreber. Ou, o que me parece
ainda mais inusitado, nao haveria muita diferenca entre Lacan e Jung com
relacao a leitura que eles fizeram do "caso" Joyce!

Vida e obra para alem de toda psicobiografia

As leituras que, mesmo entre nos, privilegiam o enfoque da obra joyceana
como reveladora da verdade de sua estrutura clinica desconsideram, a meu
ver, a referencia historica de que, desde o seculo XIX, uma "estranha
vizinhanca" entre a literatura e a loucura se inscreve no corpo do mundo
ocidental (13). Os escritores passam a lidar com as palavras nao apenas
como instrumentos que lhes permitiam abordar e mesmo representar as
coisas tomando delas uma certa distancia: o escritor se descobre como
criador de palavras-coisas e isso evoca o gesto (do) louco para o qual a
palavra e a coisa.

Assim, no "caso" de Joyce, nao e tao simples concluirmos que a loucura
que inspira seus escritos e "sua propria" loucura. E essa dificuldade e
ainda mais intensa porque Joyce tambem perpetra, com sua obra, esse
crime que foi nomeado como "a morte do autor (14)". Mas tal morte nao
implica que o autor deixa de existir como vivo e passa a ex-sistir
apenas como sujeito mortificado na trama significante da obra que,
destituida de qualquer parceria com ele, dispensando qualquer remissao a
vida daquele que a engendrou, reinaria absoluta e solitaria no lugar do
morto sem destacar, portanto, o vazio deixado por aquele que se foi.

A morte do autor vem inviabilizar determinados esforcos psicobiograficos
que tentam encontrar na vida do autor a verdade de sua criacao ou,
ainda, o contrario, tentam encontrar na obra a verdadeira identidade
daquele que a concebeu. Tal morte nao extermina o ser falante que o
autor nao deixa de ser, mesmo morto. O "caso" Joyce e, nesse vies,
paradigmatico: sua obra da vazao a um "enorme bla-bla-bla" no qual a
propria vida de Joyce nao se torna outra coisa que o que nos foi
transmitido dela via escrita. Numa escansao bartheseana, diria que a
vida de Joyce eliteralmente bio-grafia: o que dela sabemos nos chega
pelo que dela se escreve.

Nesse circuito escritural, a obra joyceana se trama como sintoma nao
porque esteja no lugar de uma outra coisa (por exemplo, a loucura), mas
sim porque transborda a propria vida de Joyce, mobiliza esse circuito no
qual ele mesmo se torna personagem nao so de sua obra (no sentido, por
exemplo, de Stephen lhe ser uma especie de alter-ego), mas sobretudo de
sua vida, uma vez que Joyce se torna referencia para toda uma serie de
escritos. Uma via de trabalho se impoe, entao, para alem dos esforcos
psicobiograficos: considerando o modo como a obra e a vida de Joyce nos
sao transmitidos, nao seria mais oportuno considerarmos Ellmann, Budgen,
Gilet, Mercanton, os destinatarios das cartas de Joyce, o proprio Lacan
e tantos outros que se dispuseram a nos transmitir alguma coisa do
sintoma proprio a Joyce como uma especie singular de passadores? Nessa
transmissao estaria em jogo entao menos um diagnostico do que um novo
saber, e um novo saber que e um saber lidar com a satisfacao em curso no
sintoma.

Nesse vies, a trama da obra de Joyce nos permitiria situar sua
inspiracao na loucura a partir de uma certa indecidibilidade: Joyce era
louco, mas ele era mesmo?

 



(1) Lacan (.), "Conférences et entretiens dans des universités
nord-américaines" (publicado em "Scilicet" - trata-se da Conferencia
feita na Yale Universtiy, Kanzer Seminar, em 24 de novembro de 1975).
(2) Miller (J.-A.), "Matemas I", Rio de Janeiro, Zahar, 1996, p. 190 e ss.
(3) "Ibid.", p. 192, 193, 199.(12) Ver: Ellmann, Richard, "James Joyce", p. 591-92.
(4) Miller (J.-A.), "Matemas I", Rio de Janeiro, Zahar, 1996 p. 145.
(5) Ver: Ellmann (R.), "James Joyce" (1959), New York, Oxford
Universtiy Press, 1983, p. 611-613, 641, 645, 650, 662-663, 665-668,
679-680.
(6) "Letters of James Joyce", Volume III, Edited by Richard Ellmann,
Londres, Faber and Faber, 1966, p. 331-332, nota 2. Ver tambem: Ellmann
(R.), "James Joyce", p. 675, 677, segunda nota; p. 677-678.
(7) Ellmann (R.), "James Joyce", p. 679.
(8) Ver: Ellmann (R.), "James Joyce", p. 679.
(9) Trata-se de uma citacao extraida da carta de Jung. Ver: Ellmann
(R.), "James Joyce", p. 679-680, quarta nota de pe-de-pagina.
(10) Ellmann (R.), "James Joyce", p. 684.
(11) Ver: Saulle, Henri Legrand, "O delirio de perseguicao", "Opcao
lacaniana", Revista Brasileira Internacional de Psicanalise, Sao Paulo,
agosto de 1996, p. 67 e ss.
(13) Ver: Foucault (M.), "Histoire de la folie à l'âge classique"
(1961), Paris, Gallimard, 1972.
(14) Barthes (R.), « La mort de l'auteur » (1968), "OEuvres Complètes",
t. II (1966-1973), Paris, Seuil, 1994, p. 491-496.