World Association of Psychoalanysis

 

Forclusao: uma cena primaria e imposta

Simone Oliveira Souto

 

M. chega ao Centro em outubro de 1996. Estava, entao, com 32 anos e havia cursado ate o 2° grau. Pertencia a uma familia de classe media. Trabalhou durante dez anos em atividades diversas de escritorio e ha nove meses estava desempregada. Recentemente, havia tomado a decisao de morar com o namorado que a acompanhava por ocasiao da primeira consulta. Ele trabalhava com protese dentaria, mas passava a maior parte do tempo desempregado; era pai de cinco filhos do primeiro casamento. Moravam, ele e a paciente, em um barracao pobre, em um bairro distante.

M. e a mais nova entre os tres filhos de um casal separado. Sua irma mais velha e casada e o irmao esta desaparecido. Sua mae, ex-professora, sofria de diabete grave e estava invalida, atada a uma cama, com uma das pernas amputada. O pai, funcionario aposentado do Instituto Medico Legal, tinha outra familia e estava distante ha muitos anos.

A primeira crise, segundo o relato de M., foi em 1994, por ocasiao da amputacao da perna da mae: ela e a irma foram convocadas a assinar a autorizacao para a cirurgia, mas M. sequer chegou a dar sua assinatura, pois no dia, segundo suas palavras, “perdeu a nocao das coisas” - saiu vagando pelas ruas, perdeu as chaves, os documentos e “custou a achar o rumo de casa”.

A partir desse episodio, entra em um quadro de inquietacao, ansiedade e hiperatividade. Trabalhava em excesso e passava noites sem dormir. Acaba perdendo o emprego que julgava estavel, onde era bem remunerada e onde estava ha quatro anos como digitadora. Passou, entao, a viver do seguro-desemprego e de alguns trabalhos nos quais não conseguia ficar mais de dois ou tres meses. Todo esse percurso culmina com o fim de um namoro de sete anos e com sua primeira e unica internacao psiquiatrica, no Hospital Santa Maria, por quinze dias.

 

No inicio de seu tratamento no Centro, M. apresenta um quadro maniforme, com humor elevado, agitacao psicomotora e fluxo de ideias acelerado. Nessas circunstancias, que vão se repetir ao longo do tratamento, ficava extremamente agitada, insone, falando sem parar, fumando muito e andando de um lado para outro. Segundo sua propria definicao, agia de forma impulsiva e impensada. Dizia: “quando vejo, ja fiz”. Comprava compulsivamente, a ponto de, numa ocasiao, gastar dois taloes de cheque em um dia. Fazia dividas no cartao de credito e, uma vez que nao tinha como paga-las, vivia as voltas com cobradores e com oficiais de justica que, por vezes, a procuravam inclusive no Centro. Em outras ocasioes, chegava distribuindo suas roupas e objetos pessoais ou, em um movimento contrario, realizava uma verdadeira via sacra, visitando parentes para se queixar de sua miseria e pedir dinheiro.

Esses períodos de “mania” eram também invariavelmente marcados por acusacoes com relacao ao marido por agressao e estupro. M. dizia que o marido a espancava e a obrigava a fazer sexo anal com ele, e isso era para ela inadmissivel. Tais acusacoes resultavam em denuncias a Policia, exames de corpo delito na Medicina Legal e em aberturas de processos dos quais, posteriormente, ela arrependia-se. Essas denuncias nunca foram comprovadas. Quase sempre tais episodios eram acompanhados, no seu limite, de uma debilitaçao fisica: falta de apetite, emagrecimento, diarreia, vomitos, hipotensao grave, arritmia cardiaca e uma certa depressao, resultante de um total esgotamento.

Essas manifestacoes somaticas, por vezes, lhe serviam de base para queixas exageradas, em que uma simples mestruacao era tomada como grave hemorragia ou sangramento anal e um corrimento vaginal tornava-se uma doenca venerea transmitida, possivelmente, pelo marido. No contexto dessas manifestacoes somaticas, e importante ressaltar que algumas delas revelaram uma absolutizacao de tracos identificatorios relativos a mae. Isso aconteceu, por exemplo, em uma ocasiao em que M. queixava-se de uma constipação intestinal de 18 dias. Durante o atendimento, revela-se que essa queixa era relativa a um sintoma materno e que M. estava, de fato, com uma diarreia porque havia tomado todos os laxantes recomendados a mae

Queixava-se tambem, constantemente, de uma certa implicancia das pessoas em relacao a ela, principalmente aquelas de sua familia: a mae, a empregada, o marido, as tias, a sogra e, com especial destaque, sua irma - ora um, ora outro, havia sempre alguem querendo prejudica-la. Varias vezes, essas brigas e suas posteriores reconciliacoes a levavam a abandonar a casa onde vivia com o marido e a voltar para casa da mae e vice versa.

E importante ressaltar que M. nunca nos forneceu qualquer indicio de fenomenos alucinatorios ou de delirio manifesto. Podemos dizer que, durante um certo tempo, o tratamento foi marcado pela predominancia de uma serie de atuacoes sucessivas, aparentemente sem nenhuma significacao, significacao esta que vai aparecer somente a partir de uma queixa: sua familia e o marido estavam querendo faze-la passar por prostituta. Uma indicacao disso, segundo M., seria o fato do marido ter colocado uma luz avermelhada em seu quarto - iluminacao normalmente encontrada nas casas de prostituicao. Dois outros episodios relatados por M. apontam, conforme veremos, para a mesma significacao.

Por ocasiao de um desses episodios, chegou ao Centro muito agitada, dizendo que estava evacuando sangue e vomitando. Tudo havia começado quando foi a casa da mae (onde também moravam a irma, o cunhado e os sobrinhos) e encontrou, nas suas plantas, um fusivel, uma ficha telefonica e um bilhete onde estava escrito “Deus perdoe Maria Madalena”. Esses objetos teriam sido colocados la por sua irma e seriam dirigidos a ela. M. faz deles a seguinte interpretacao: fusivel e ficha telefonica - “se liga”, Maria Madalena - “puta”. Ela, entao conclui que a mensagem era: “se liga, voce e uma puta”.

No episodio seguinte, encontra o sobrinho na sala da casa da mae segurando um galo. O sobrinho lhe diz que o galo chama-se Marcelo, nome do marido de M. Ela conclui: “entao, eu sou a galinha”. M. relata ainda que, na divisao dos bens de sua familia, a casa ficaria para sua irma, o barracao dos fundos para o irmao e, para ela, sobraria como herança o galinheiro.

Ao longo do tratamento, torna-se cada vez mais claro que suas constantes atuacoes, a principio sem nenhuma significacao, encontram uma certa convergencia nessa significacao que lhe e imposta: “puta”. Tal significacao - que não reenvia a nada alem de si mesma - impoe-se a M. a partir de uma exterioridade absoluta. Podemos toma-la como um indice de forclusao, uma interpretacao delirante que aparece como uma resposta a emergencia do real, a irrupcao de um gozo nao simbolizado e que, para M., e avassalador.

Essa hipotese pode ser confirmada quando, por ocasiao de um atendimento, ela relata que, no dia anterior, havia assistido um filme em que uma debil mental sofria abusos sexuais de um homem. Segundo M., esse filme fez com que ela se lembrasse de sua historia. Relata que seus pais separaram-se quando ela estava com sete anos. O motivo desse rompimento foi que sua mae descobriu que o pai mantinha um caso com a empregada da familia. Apos essa descoberta, o pai sai de casa e a mae comeca a trabalhar fora. M. diz que se sentiu abandonada pelo pai e rejeitada pela mae. Passava, entao, a maior parte do tempo sozinha com o irmao alguns anos mais velho que tinha como tarefa cuidar dela e ensinar-lhe os deveres de casa. M. diz: “fiquei a merce dele, ele abusava de mim, me obrigava a ter relacoes sexuais com ele; algumas vezes, tentei avisar minha mae, mas ela nao acreditava em mim e me proibia de falar nesse assunto”. Segundo M., essa relacao com o irmao prolongou-se ate a adolescencia: o irmao a vigiava e nao permitia que ela namorasse outros garotos. Chorando muito, M. acrescenta: “isso nao e fantasia, aconteceu com meu corpo”.

Juntamente com essa lembranca, relata que seu terror infantil era o saci (1), pois sua mae ameaçava-lhe constantemente com essa entidade. Associa isso ao fato da mae ter amputado a perna e diz: “agora, e ela que está la, igual a um saci”. Nesse atendimento, M fala sem parar, fazendo continuas associacoes entre sua atribulada vida sexual, marcada pelo signo do estupro, e o episodio de que foi vitima na infancia. Relata, tambem, que quase foi reprovada em biologia, quando foi preciso aprender o aparelho reprodutivo e relaciona essa dificuldade a violencia sexual sofrida. Diz ainda que a experiencia vivida com o irmao retorna-lhe toda vez que o marido lhe pede para fazer sexo.

No entanto, nao podemos dizer que essas associacoes funcionem como uma elaboracao. Longe de se constituirem como uma amarracao que lhe permitissem subjetivar a cena primaria experimentada no real, o que essas associacoes evidenciam e o desencadeamento de uma avalanche de significantes que teve, nessa ocasiao, como consequencia imediata, efeitos no corpo (desarranjo intestinal, vomitos, forte dor de cabeca), acompanhados de um quadro de agitacao e de extrema desorganizacao.

Podemos dizer, entao, que a cena infantil relatada por M. impoe-se como uma experiencia do real de um gozo que lhe reaparece fora de qualquer sentido e a significacao “puta”, que advem dessa cena, lhe sera imposta, por sua vez, como uma resposta do real.

Miller, em “Os signos do gozo” (2), ressalta a diferença a ser feita entre a significacao como resposta do real, enquanto um indice de forclusao, e a significacao como resposta do Outro, enquanto efeito da significacao falica.

E justamente a ausencia dessa significacao falica que ira conferir a cena infantil relatada por M. uma existencia real, na medida em que essa cena nao encontrou sua inscricao no lugar do Outro. Dessa forma, segundo as palavras de M., ela fica a merce do irmao e seus apelos nao sao escutados pela mae, uma vez que esta rejeita todas as tentativas, feitas por M., de falar sobre tal assunto. Como consequencia, a”cena primaria” nao sera tomada como uma fantasia: trata-se de algo que aconteceu com o seu corpo.

Durante algum tempo, no decorrer do tratamento, M. vai variar entre periodos de agitacao - quando lhe era necessario permanecer o dia todo no Centro e, por vezes, ser conduzida e buscada em sua casa -, e outros periodos de relativa tranquilidade, no quais mostrava-se mais organizada, sociavel e com alguma capacidade de discernimento e critica com relacao aos seus momentos de crise.

O quadro clinico piora quando M. engravida, logo apos a morte da mae. A gravidez foi considerada de alto risco. Nesse periodo, ela procura o pai, ausente ha muitos anos, como um aliado em um processo, contra a irma, pela heranca da mae. Chega a morar, entao, durante alguns meses, com o pai. Ele responde a seu apelo de uma forma especular: enreda-se no problema da heranca, limitando-se a repetir, com ela, uma posicao querelante. M. acaba considerando que o pai nao lhe da o apoio que esperava e ela volta a viver com o marido.

 

Quando nasce a criança - um menino -, ela escolhe para ele o nome do esposo. Por algum tempo, entra novamente em crise, apresentando serias dificuldades nos cuidados com o filho, o que implicava, as vezes, em serios riscos para a crianca. Torna-se necessario, entao, readmiti-la em tempo integral para tratamento.

Nessa epoca, recebemos no Centro a visita de dois detetives de uma Delegacia especializada em Crimes contra a Mulher. Apareceram devido a um dos processos abertos por M. contra o marido. O parecer, que constava no laudo do Instituto Medico Legal, era de “conjuncao carnal”, mas nao de estupro. Os detetives trouxeram duas intimacoes para prestacao de depoimento: uma, em nome de M. e outra, em meu nome. Segundo eles, ja era de conhecimento da Delegacia que M. estava em tratamento no Centro e, por isso, solicitavam tambem a minha presenca como acompanhante.

Diante dessa intimacao feita a mim para depor, M. ficou visivelmente preocupada e desconcertada. Pediu-me desculpas e mudou completamente a forma como vinha agindo ate entao, alegando que nao queria “dar mais trabalho”. Ela disse que, diante da Justica, queria falar a verdade e fazer valer sua palavra. Na Delegacia, fez seu depoimento. Relatou, entao, que a denuncia de estupro nao era veridica e que, por vezes, “exagerava os fatos”. Solicitou a retirada da queixa. Meu depoimento restringiu-se em afirmar que ela era capaz e estava em condições de dar tal declaracao.Esse episodio permitiu a M. uma inscrição no campo do Outro, na medida em que sua palavra agora pode ser reconhecida e referenciada a partir de uma lei.

Depois desse acontecimento, M. entra em um periodo de estabilizacao. Ha mais de um ano tem ido ao Centro uma vez por semana, para atendimento e controle da medicacao. Trata, agora, principalmente de questoes referentes a maternidade: como cuidar do bebe, o que fazer, o que dizer, etc. As vezes, diante de dificuldades financeiras, e atraida pela ideia de voltar para a casa que era de sua mae e recomecar toda a querela com sua irma. No entanto, acaba concluindo que o preco que ela pagaria por isso seria muito alto: “ter um filho sem pai, um Ze ninguem”, que seria cuidado por todos e nao teria, de fato, pai e mae. Assim, conclui que, agora, sua família sao ela, o marido e o filho. Fala tambem de sua satisfacao por estar conseguindo - nao sem um grande esforco - ocupar o lugar de mae. Considera isso algo de muita importancia, ate mesmo uma vitoria.

 


1 - O saci é uma figura do folclore brasileiro que se caracteriza por ser negro, fumar cachimbo, usar um gorro vermelho e ter uma perna só.

2 - Ver: Miller, Jacques-Alain. “Los signos del goce”. Buenos Aires, Paidós, 1998, p. 394.